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Um Cérebro de Macaco

                Kinúa é um índio que tem força para vencer queda de braço. Pra apanhar lenha e levar tora de madeira na corrida sobre os ombros, pulando e passando os obstáculos. Subindo serra, ladeira abaixo, ladeira acima. Passando o rio, córrego, riacho, na correnteza em sua braveza. Sim, claro: Kinúa está no ápice da força! Kinúa imita sons de símios, com perfeição...

                Kinúa fala, claro, a sua língua nativa indígena e a língua dos diversos missionários com os quais teve breve contacto. Fisionomia calma, serena e firme ou intempestiva. Às vezes, meio introspectiva. Kinúa faz sucesso com as mulheres da aldeia: carrega as menores no colo ou de cavalinho nas costas. Recolhe a pouca roupa (roupa?!) bem rápido antes da chuva da tarde (em sua aldeia, chove todo dia quase... rs s), pega peixe, caça e vigia. Sorri para as idosas e leva pra elas frutas e mel e água. E sempre escuta as suas conversas meio lenga-lengas, que são mais do que simples e usuais ótimos aconselhamentos. Carrega pra elas pesados balaios... Faz força. Geme, mas vence a distância e o peso.

                Kinúa está prometido para uma menina de outra aldeia. A irmã de Kinúa me confidencia. Diz bem baixinho, um nome de prima. E eles se amam e se vêem a cada três (3) meses aproximadamente, nas festas e ritos da aldeia.

                Kinúa aprendeu a ler nos livros do Governo. Entende a escrita do Português mas só gosta de dizer “obrigado” e mesmo assim, com acentuado sotaque índio.

                Kinúa conheceu a TV, o Videokê, os filmes, as músicas e as lições da Tv Escola, na taba e na escola indígena da aldeia. Conheceu a internet. WhatsApp. Sms. E dizem que chora disfarçadamente (como eu e você talvez... rs s) quando os Casacas Azuis (soldados) atiram e matam com seus rifles Winchester, os silvícolas guerreiros norte-americanos das telas, que usam tão bem seus cavalos e seu arco e flecha simultaneamente... montados e galopando firmemente e certeiros...

                  Kinúa gosta da bandeira branca dos filmes. Mais do que a bandeira de estrelas confederada... Sim, a bandeira branca que paralisa a guerra. E o filme que mais gosta, são os do cão militar Rin-tin-tin. E claro, os do Tarzan, Jim das Selvas e de Astronautas... (inconsciente coletivo humano).

                Kinúa, numa breve fase de sua infância e vida, dizia se chamar Johnny. Ganhou uma jaqueta verde do Exército brasileiro, mas que diachos... a tingiu de azul, como os Soldados Confederados dos filmes... E não se sabe quem o ensinou a tingir. (o Chefe Tuxáua? o Curandeiro? Sua mãe ou avó? Mas quem se importa?!... rs s)

                Na época, ele fez uma garrucha e uma espingarda de madeira... entalhada no canivete... e se fosse com elas pra cidade grande, certamente seria enquadrado por porte ilegal de armas ou no artigo 171 ou outro artigo desses... embora a funai – Órgão Governamental, instrua e proteja nossos índios, que em muitos casos, estão à margem de nossos leis civilizadas da sociedade. Bem, com aquelas armas tão parecidas com as reais, ele fatalmente seria detido para averiguação. Considerado suspeito de atos criminosos. Quem sabe tentativa de roubo, furto, seqüestro e o que mais a imaginação policial poderia suspeitar e o acusar... mas na realidade, aquelas armas fabricadas por ele, eram quase que perfeitas...

                Kinúa viu e ouviu na TV Escola, no canal Futura, no Pró-Saber, nos canais educativos todos aos quais teve acesso, cenas marcantes sobre empreendedorismo... e pensou em trabalhar na fábrica de brinquedos “Estrela” ou em outra... pensando em fabricar armas de brinquedo... mas foi informado que as mesmas foram proibidas de serem fabricadas e distribuídas como brinquedo infantil (ou adulto... rs s), por leis rigorosíssimas... e assim, ele ficava horas e horas (como Henry Ford dissera que faria se um dia entrasse em bancarrota... rs s) pensando em como fazer algo bom para a humanidade...
 
                 Uma noite, a irmã de Kinúa me chamou afobada, esbaforida, dizendo que Kinúa tinha agora um plano muito bem idealizado e queria me ver e falar comigo... e eu fui... sendo que na pressa, esqueci de calçar as minhas botas de cano longo favoritas e esqueci de passar meu repelente de insetos... (eu também falho às vezes... rs s). Fui rápido, pois afinal, eram minha gente agora...

                 Chovia bem fraquinho... mas era daquelas chuvas que nos enganam... e como quem não quer nada, nos deixam encharcados... e nos resfriam com facilidade.

                 Bem, ao chegar, eu estava espirrando... e me deram um troço quente, que eu bebi pelando... e senti que desceu rasgando... firewater?! Firewater?! Perguntei e apenas sorriram pra mim... rs s. Só sei que tinha um gosto meio que acridoce... algo como pêssego (Oh! Nossas memórias sensoriais... rs s) ou purgante(?) da infância querida distante e longínqua... rs s. Algo como água de salsicha quente batizada... licor? Amargor? (sim... ligeiramente... rs s) Sei não... só sei que tinha caído num buraco no caminho inadvertidamente... e eu me coçava todo... tinha tomado umas quinhentas picadas de formigas das mais variadas espécies e tinha ficado coberto de vários outros insetos amazônicos... e realmente EU PRECISAVA AGORA daquela fórmula mágica, daquele elixir, poção, remédio... sei lá o quê... rs s. Eu realmente esperava que isto curasse todos os meus males... (até a solidão...) mas sabemos que para curar TODOS os males... só mesmo o poder de Jesus Cristo...

                 Me deram uma espécie de toalha muito doida, de um material diferente... e eu tentei me enxugar... (parecia um SPA, hein?! O leitor desavisado poderia dizer... rs s). Me deram um cobertor (este era dos nossos... rs s) e eu me enrolei imediatamente. Me deram mais uma dose daquele troço, de novo, naquela mini-cacimba... e eu tomei o troço fervendo mesmo como estava... (fazer o quê, né?!). Bem, eu virei tudinho... pois realmente eu precisava! As picadas de inseto então, começaram a melhorar... e me vi num Nirvana... num Paraíso de reflexão total...

                 Senti meu rosto como que afogueado. Meio dormente, meio dolorido... e até senti paz e alguma felicidade momentânea. Mas senti que minhas boichecas deviam estar avermelhadas e ENORMES, como as do Kiko do programa mexicano de TV do Chaves, que passa no Brasil com exclusividade pelo canal SBT.

                 Não sei se era febre... só sei que eram minhas orações por cura sendo imediatamente atendidas, de uma maneira que até então eu sequer imaginara. Milagrosamente... e cheguei mesmo a sentir a presença do E.S. de Deus em mim... o que me conferia um bem incrível e uma paz maravilhosamente bem-vinda...

                 Bem, começamos a conversar em diferentes dialetos e línguas... em outras línguas indígenas ancestrais... e eu entendia tudinho e me fazia entender, com gestos e palavras e monossílabos... (mas nada de ficar falando “yes, yes, yes” inadvertidamente... pois este é um erro primário de imigrantes brasileiros nos EUA... e nessa eu já caí uma vez... e já ouvi um milhão de histórias e estórias a este respeito... rs s).

                 Tomei mais um trago do troço. Me ofereceram e estava bom. Cada vez melhor... Bem, se minha garganta estava mal, agora estava próximo da cura... e isto, eu sentia, me aproximava mais e mais deles, que também tomavam aquela poção milagrosa e colorida.

                 Então, me pediram para contar umas daquelas histórias fantásticas da Bíblia... e eu apelei mesmo para o Realismo Fantástico... pois a fogueira crepitava... meu espírito voava... planava sobre o arvoredo... sobre os penhascos... no meio da neblina esfuziante... e todos me escutavam em silêncio atentamente...

                 Comemos peixe. Tinha também um tipo de farinha molhada... Funcionou assim: eu olhava: se as criancinhas comiam, eu comia mais vorazmente... e se o chefe comia e me oferecia, eu não negava nada... e assim, comi vários tipos de pimentas bem fortes segundo meu costume ancestral e o costume dos guerreiros da tribo.

                 Kinúa trouxe um papel enrolado, como um mapa ou projeto arquitetônico... desenrolou calmamente e começou a falar. Parte em Português e parte em seu(s) dialeto(s) tribais... e acho que até numa língua reinventada na hora por ele e por mim... (acontece às vezes... rs s). Às vezes m-o-n-o-s-s-i-l-a-b-i-c-a-m-e-n-t-e... e ele fazia gestos acompanhados por mim, que aprendia e entendia novos significados... e eu e sua irmã acompanhávamos tudo atentamente, surpreendidos com a forma com que ele agora expunha bem seus argumentos...

                 Ficou tarde (ou cedo?! rs s) e fomos dormir... perdêramos a noção das horas... e o sono veio tateando as paredes da oca e da taba ou sei lá onde agora estávamos... rs s.

                 Antes do amanhecer, enquanto eu orava – meio que acordado, meio que dormindo... segundo o meu costume... o motorista do 4 x 4 me chama pra ir... Ele soubera que eu tinha ido à pé e fora me buscar a pedido de amigos missionários da floresta... Ele chegara à noite, de madrugada... e tivera tempo de comer e beber, participar e “assuntar” as conversas...

                 Saímos rapidamente... e no caminho ele permaneceu calado... e eu coloquei uns óculos escuros da coleção de três (3) óculos escuros que possuo... (pra nós homens, três óculos já são uma coleção, meninas... rs s) pra orar e dormir...

                 Depois de um longo tempo, ele me perguntou:
                 - Que coisa, hein, pastor Márcio... O Sr. Come com os índios igual índio... fala como índio... deixa as crianças e o curandeiro passarem lodo e barro, urucum, carvão e outros corantes doidos em sua pessoa... (ele falava assim... rs s) O Sr. Come aquelas pimentas sem chorar nem fazer careta aparentemente... bebe aquele troço fervendo do qual sai fumaça branca e colorida... e eles te respeitam e ouvem quando fala... muito interessante... Uma pergunta... (disse ele)

                 - O que era mesmo aquele docinho branco parecido com côco e é meio molinho... que vem nuns potes pretos e marrons... O que era aquilo mesmo?  É meio MOLENGUINHO... (Puxa! Quando ele falou aquela palavra, corri e anotei... pois MOLENGUINHO era um precioso achado... um nome para o merchandising do produto... rs s). Vi que o Sr. Nem provou...

                 Eu disse a ele :
                 - Quando chegar eu te falo... pode ser?!

                 Ele balançou a cabeça aceitando...

                 Mas todo o caminho que restava, ele ficava me perguntando... curioso... enchendo minha paciência, louco para saber... e eu fiquei enrolando... tentando dormitar um pouco...

                 Bem, uma hora ele me apertou e tive que falar que provavelmente era alguma coisa saudável, pois as crianças comiam e lambiam os beiços... e que eu não quisera comer... pois peixe, farinha molhada e pimenta foram o cardápio do Cacique (Tuxaua) e do Curandeiro eu estava sentado no chão bem próximo a ele... e estava comendo a mesma comida que ora ou o Cacique me oferecia, ora o curandeiro da tribo, me oferecia... etc e tal.

                 - Ufa! Ainda bem que deve ser saudável... pois eu comi uns cinco (5) daqueles maiores... rs s (disse o motorista rindo...)

                 - Eu sei... eu vi... rs s (respondi também sorrindo...) e pela sua cara de esfomeado comendo... devia estar saboroso como algo de sua infância...

                 Antes de chegar no destino, ele parou o carro para irmos ao banheiro da selva. Eu me posicionei vigiando o lado direito (do passageiro) e ele vigiando o lado esquerdo (o do motorista). Miramos nos arbustos e conseguimos nos aliviar a contento...

                 Antes de entrar no carro, perguntei a ele se agora ele queria ouvir o que era aquele docinho branquinho MOLENGUINHO... que ele dissera parecer com os doces que comia na infância na Bahia onde nascera...

                 - Ah! Até que enfim... fala logo, pastor...

                 - Um c-é-r-e-b-r-o... de m-a-c-a-c-o... falei bem pausadamente... e continuei explicando: é a idéia do índio Kinúa – agora um empreendedor visionário... que deseja caçar, preparar, enlatar e exportar o produto em pequenas latinhas com porções individuais prontas para consumo... para que o mercado comum europeu, possa saborear esta iguaria da nossa selva amazônica... rendendo royalties e USDólares para minorar o sofrimento de sua tribo, levando também mais algum conforto moderno, etc. principalmente em termos de saúde...

                 Aproveitei que ele ainda olhava para mim com os olhos arregalados e disse em tom firme novamente: Era cérebro de macaco cozido ou assado... produto made in Brazil...

                 Olhei e não o vi mais... então gritei: ei, cadê você, meu filho?! Depois vi que ele correra para uma moita próxima e estava vomitando (ou tentando...) o que ainda restara de seu magnífico jantar à luz de lamparinas, numa taba indígena bem no meio da Amazônia...

                 Ah! Uma curiosidade apenas: Kinúa sabe imitar os mais variados tipos de símios, macacos... grandes e pequenos... e sabe imitar até mesmo os gorilas... mas estes, ele só viu na TV como você, provavelmente... e imita a todos perfeitamente... parece que até se comunica com eles... Ele é Criacionista e não Evolucionista... e agora, está mesmo é preocupado com este seu novo tipo de “fast food” da floresta... e até está tentando obter uma autorização do IBAMA e da FUNAI para este seu propósito... Ah! Alguém está servido?! Segundo ele, empresas interessadas em comercializar o produto, devem colocar seu nome na lista... rs s.

                                         x-x-x

MSCF - GV (BMG) MG.
January 21st, 2016. 15:15h

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MÁRCIO SÉRGIO CASSIANO DE FREITAS e a fonte
( livro inédito = "Crônicas Vivas e intempestivas" )
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MÁRCIO SÉRGIO CASSIANO DE FREITAS
Enviado por MÁRCIO SÉRGIO CASSIANO DE FREITAS em 21/01/2016
Reeditado em 31/03/2021
Código do texto: T5518472
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
MÁRCIO SÉRGIO CASSIANO DE FREITAS
Governador Valadares - Minas Gerais - Brasil
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MÁRCIO SÉRGIO CASSIANO DE FREITAS