INSTINTO, RAZÃO E A INUSITADA CONSEQUÊNCIA DA COVARDIA

Na corrida de cem metros rasos, enquanto aguardava o disparo de festim que autorizaria o seu início, ele começou a se indagar o verdadeiro propósito de estar ali. Não era o mais rápido. Sempre fôra avesso a competições. Não seria o vencedor. Rapidamente, passou os olhos nos demais competidores. É! Muito provavelmente, seria o último a cruzar a linha de chegada. Lembrou-se daquelas mensagens motivacionais removedoras de pedras e manipuladoras de montanhas. Tentou, em vão, inspirar-se nelas, de forma a sentir-se instigado pelo desafio. "Aos seus lugares!" Queimou a primeira largada. Foi puro instinto. Buscava mais tempo para refletir sobre tudo aquilo. Não deu muita importância aos olhares repreensivos de alguns competidores. A reação era normal. Atrapalhara a concentração de quem estava ali para vencer. E haveria um vencedor. "Aos seus lugares! Prontos!" Queimou a segunda largada. Dessa vez, fôra a razão, e não, o instinto. Mais ou menos dez segundos. Mais ou menos cinquenta passos. Impossível! Pensou que, talvez, a sua única chance de um fracasso menor seria a desestabilização dos adversários. Já esperando novos olhares de repreensão dos competidores, preparou um sorriso irônico em resposta. Não deu certo. Foi pego de surpresa. O juiz de largada arremessou a pistola para o alto. Caminhou a passos largos em sua direção. Lançou-lhe um olhar claustrofóbico. Enfiou a mão direita no bolso. Puxou o cartão vermelho e gritou: "Está expulso!" Enquanto deixava a pista de atletismo, aliviado, ouviu os aplausos da torcida e ficou imaginando se seriam para ele, ou para o juiz.