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Joãozinho não perde a piada

_ Professor, o que é sexto sentido?
_ Olha, nós temos cinco sentidos: tato, audição, olfato, visão e paladar. Dizem que o sexto sentido é um sentido que as pessoas têm a mais, como prever coisas, sentir, etc... - o professor continuava sua explicação - com o tato, agente sente o toque de alguma coisa, se está frio ou quente, por exemplo, já a audição é pra gente ouvir, olfato é pra cheirar, visão pra ver, e paladar pra sentir o gosto. Aproveitando a pergunta inédita do Joãozinho, que desta vez não fez nenhuma piada de mau gosto, quero que na próxima aula vocês me apresentem um texto ou qualquer coisa dizendo sobre a importância dos sentidos.

No dia seguinte, o famoso Joãozinho depois de Mariazinha começou a ler seu texto:

_ O tato: o tato é importante porque é na pele que agente sente que tem algo errado, que pode estar machucando de tão quente ou gelado, o povo, por exemplo, não tem tato aguçado, porque apesar de apanhar todo dia, tomar beliscão, tapa na cara, um balde de água fria, parece que não sente nada.

A audição: é muito importante, porque é através dela que se pode escutar tudo o que acontece à nossa volta, mas parece que o povo é surdo, porque como disse Chico Science, todos estão surdos, ninguém escuta ninguém, os jornais comunicam e ninguém ouve, só escutam quando falam de bunda, futebol e novela, penso eu que o povo só tem 5% de audição, pois pra toda regra tem uma exceção.

Tem algo cheirando mal, mais não foi o Carlinho que peidou professor, nem o sovaco da Cláudia, é o lixo que agente produz, o mar está verde quase marrom de bosta, os rios piores, os bueiros estão entupidos, e olha que aqui é cidade pequena eim, imagina em São Paulo! Mas apesar de todo o mau odor, as pessoas passam e parece que não sentem cheiro nem de falcatrua dos políticos, nem do esgoto próprio, impressionante. Estamos de nariz entupido e não é de catarro, é de comodismo, como disse meu pai.

Está tudo na cara, embaixo do nariz, mas o povo é cego, não vê os políticos aumentando o salário, contratando parentes, colocando os filhos em escola particulares, não vendo então que, os governantes sabem das condições das escolas públicas e não fazem nada diante da cegueira popular. Pagam plano particular, sabendo também que a saúde pública está defasada e não faz nada além de se beneficiar da falta dos sentidos do povo. Ninguém vê a Amazônia sumindo, ninguém vê os gringos entrando pra tomar conta, ninguém vê as estradas esburacadas, o caos aéreo, as terras mal distribuídas, os hospitais falidos e jogados, as escolas abandonadas e maquiadas, os professores, “não sei se você concorda professor” desvalorizados, valor dos impostos sempre aumentando, as condições sempre piorando, o mundo sempre desabando, ninguém vê, ás vezes bate um reflexo de alguma coisa, mas logo ficam ofuscados e esquecem do que viu! A cegueira predomina e os políticos brincam com o povo de cabra-cega.

O professor já estava com todos seus sentidos aguçados para não perder nada do que aquele menino que sempre disse baboseira em piadas dissesse, e Joãozinho continuava:

_ Agora, o gosto, professor. O paladar, sempre sentimos o gosto da tristeza, porque quando fui ao nordeste, vi meninos com gosto de poeira na boca, gosto de fome, quando vi o jornal, imaginei João Hélio, a empregada, o índio, os inocentes mortos por bala perdida, os mortos nas estradas terrestres e aéreas, todos devem ter o gosto de sangue na boca, o gosto de caos, de morte, de desorganização, todos devem sentir um certo gosto de medo também. Quando vejo TV, sinto o gosto de mentira, de prepotência, de egoísmo, senti o gosto de inutilidade, muitos jornalista tem o gosto da frieza na boca, nem falo dos médicos e advogados. Sentimos o gosto de descaso, desunião, diferença social, pobreza, esgoto, gosto de ferrugem, de bala perdida, de preconceito, sei que este sentido o povo tem aguçado, o paladar. Mas, outro dia, minha mãe disse que antes odiava café, mas se acostumou com o gosto e hoje toma normalmente sem reclamar, então acho que todo esse gosto que nós, o povo, sente virou café, o povo se acostumou, a partir dessa conclusão, não considero que tenhamos um paladar aguçado, porque o ignoramos.

E pra mim o sexto sentido que o povo teria, seria a força, mas acho que para se ter o sexto sentido, deve-se se ter os outros cinco, obviamente. Enfim, tentei aqui, explicar toda a importância desses sentidos do jeito que você pediu.

O professor ficou paralisado, e Joãozinho disse:
_ Professor, você está com cara de povo!

É... Joãozinho não perde mesmo a piada
Enzo Pinho
Enviado por Enzo Pinho em 25/07/2007
Reeditado em 02/08/2007
Código do texto: T578916

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Sobre o autor
Enzo Pinho
Nova Era - Minas Gerais - Brasil, 35 anos
239 textos (23156 leituras)
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Enzo Pinho