A Barroquesa
 

Discutem uns e falam outros. Os gramáticos, sacerdotes de Procusto,  queimam em Fogueira da Inquisição quem ousa ultrapassar suas normas vernáculas. Então vamos homenagear os sacerdotes das Musas que se inspiram na criatividade e permitem a Liberdade da Poesia. Abusemos dos neologismos para expressarmos!
 
Baronesa! Em seus momentos de iras e ódios de Alzheimer era o título com o qual  meu pai se referia à minha mãe. Quem foi  que disse que entre casais e em família não há o extravasamento de recalques é um hipócrita!
 
Meu pai tinha um atavismo todo libertário. Além de ser filho de burgueses lusos, era tataraneto de índia laçada para servir mesa e cama e bisneto de negra comprada para os serviços e caprichos. Aqueles olhos verdes turquesa  eram quinhões  da loura mãe, mas o senso de liberdade era da velha índia e a criatividade artística, da negra mulher. Os pés calçavam os tamancos portugueses. Ele gostava de promover teatros nas escadarias da igreja – um escândalo! – e bailes na sala da casa – motivos de ciumeiras e falas na família materna. Assim passou a juventude. Na fase adulta quis como herança caminhões que varavam com seus ajudantes este Brasil afora. Nunca quis ficar preso aos átrios  religiosos e familiares. Ia e vinha com toda liberdade das chegadas e partidas. Na velhice os ais e os uais lhe podaram asas e amarraram os pés.
 
- O homem tá aí! Era a fala de minha avó materna que morava com a gente  quando ele abria a porta. E esta forma toda de falas, observações e colocações sobre a sua pessoa por parte de minha família materna foram depositando saldos de antipatia no banco de memória do meu pai.
Já velho  ele via minha mãe e com toda acidez a afrontava:
- BARONESA!
 
Ela não tinha nada com a hierarquia aristocrática. Era uma caipira dos altos da Mantiqueira cujo pai de descendência alemã adotara o sobrenome luso da mulher para evitar desconfiança nos reles da terra. Filha de pais e irmãos fazendeiros era Filha de Maria. Mas como toda mineira desenvolveu todo um sincretismo religioso para se livrar de qualquer perrengue. A  superstição era sua bússola,  todas as rezas eram invocadas e todos os cultos realizados. Promessas para os santos e ofertas para todos os guias.
 
Quando saiu da fazenda e do arraial  veio para um centro urbano maior para que meu pai desenvolvesse seus carretos. Este sincretismo se assentou mais ainda. Sua peregrinação espiritual para atrair bênçãos e bons fluídos era uma rotina seguida semanalmente:
no domingo de manhã era  missa em uma das capelas do bairro; na segunda-feira era novena no cemitério para as almas; quarta-feira era novena para S. José Operário; quinta-feira era na casa da curandeira para meu pai ser curado do alcoolismo; na sexta-feira era no terreiro da umbanda; e no sábado era missa na igreja do bairro ou no santuário central. Ela cercava por todos os lados e meios espirituais para que a família ficasse protegida de toda má sorte. Mas se lhe perguntassem sua religião ela estufava o peito e dizia: “Sou Católica Apostólica Romana, Filha de Maria”!
 
Ninguém lhe recriminava o seu sincretismo ou porque não sabiam e se sabiam fingiam que não ou porque como todo bom mineiro fazia suas peregrinações pelas igrejas, cemitérios e terreiros. Ou seja, todo mineiro tem seu lado barroco de ser: Anjos mulatos, Virgens negras, Cristos europeus nos seus relicários de ouro e rosários de pérolas e pratas.
 
Por isto que a afronta melhor que meu pai poderia lhe fazer não era dar-lhe título de nobreza. Mas lhe xingar adjetivando sinteticamente o que somos e ela exercia com primor:
- BARROQUESA*!
 
Em suas horas de ócio, como uma dama da corte, ela bordava, tricotava e crochetava – só trabalho manual leve -  porque arear, lavar, cozinhar e cuidar dos filhos competia à negra trazida da fazenda. Daí, talvez, o título nobre que meu pai pejorativamente lhe imprimia.  Na família paterna o feminino produzia  mercadorias para o comércio – queijo, manteiga e demais derivados do leite - e não  passatempo de agulhas e rezas.
A família paterna produzia para a carne e minha mãe para comprar o céu barroco.
 
Leonardo Lisbôa.
Barbacena, 08/02/2017
 
 
*Neologismo criado pelo cronista. Palavras correlatas no https://duvidas.dicio.com.br :
¹barroqueiro - m. Prov. alent. Barroco, pedra tôsca. (De barroco1)...
²barroquismo - s.m. Caráter ou qualidade de barroco. / Exuberância, exagero, extravagância....
   
 
 

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Leonardo Lisbôa
Enviado por Leonardo Lisbôa em 10/02/2017
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