Até O Final Do Horizonte Da Rua

Até O Final Do Horizonte Da Rua

Um dia desses, eu estava no ponto de ônibus aguardando uma condução, juntamente com outras pessoas que estavam ali para o mesmo fim.

Entretanto, havia um senhor mais perto de mim e notei que ele olhava insistente na direção do meu peito.

Quando conclui que era isso mesmo, também olhei, pensando talvez, que minha camiseta estivesse suja.

Foi então que ele perguntou:

__O senhor é católico, não é?

__Sim. Respondi surpreso.

__Vocês adoram imagens – Tornou o homem, apontando para uma medalha de prata com a figura de Nossa Senhora das Graças que eu uso ao pescoço.

Segurei-a e beijei-a sentindo-me um pouco chocado, porém intuindo ali uma oportunidade de amar, continuei o diálogo.

__Sabe meu senhor, nós os católicos, adoramos somente a Deus e a Jesus na Santa Eucaristia. Essas “imagens” as quais prestamos nossa admiração e respeito, são na verdade como fotos de pessoas que admiramos e que são muito importantes para nós.

__É mesmo? Mas... Nós não colocamos nossas fotos em altares!

__Mas as colocam nas paredes de suas casas – disse eu – E até mesmo em pingentes pendurados em correntinhas, parecidos com esta que estou usando.

O homem pensou por um instante.

__Isso é verdade mas, só Deus é Deus e só a Ele prestarás culto.

__Concordo com o senhor, mas veja, por exemplo, que na sua igreja, quando alguém é temente e fiel a Deus, seguindo por amor os preceitos divinos; esse alguém desperta em todos, muito respeito e admiração... Não é?

__Sim, são servos de Deus.

__Muito bem! Ressaltei eu – À nós, causa tanto respeito e admiração, que usamos essas fotos para nos encorajar a sermos como eles; agirmos como eles.

__Mas Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai, senão por mim.”

__Sim – eu disse – Jesus é e sempre será o caminho para nós também. Mas as imagens dessas pessoas, são como um encorajamento para nós em continuarmos nesse caminho, como a nos dizer: “Venham, persistam! Esse caminho vale a pena! Coragem, continuem!”...Veja esse exemplo: o senhor não admira seu pai pelo exemplo de vida que ele deixou, sendo reto, trabalhador e bom pai?

__Sim, com certeza!

__E o senhor não tem fotos dele?

__Simmm! Dele e de mamãe... Minha esposa e filhos..bem aqui, em minha carteira mas... Só o Senhor é sagrado!

__Mas a família, a honestidade, o respeito ao alheio, são preceitos de Deus e são sagrados também...

No silencio que se imperou, notei que outras pessoas prestavam atenção na conversa, com a pontinha das orelhas...

O simpático e compenetrado homem, disse ainda:

__Maria... Essa que você tem ai no peito... Era uma pessoa absolutamente normal. Por que vocês tem tanta admiração por ela?

Me pus a pensar... Sentindo toda minha pequenez... Esmagado pela minha ignorância... Segurei forte minha medalha, pedindo ao meu Deus, o nosso Deus... Uma luz.

Subto me iluminei e rendi graças ao Espírito Santo e disse:

__Lembra-se senhor, quando Moisés apascentava o rebanho nas montanhas, e uma sarça que ardia em chamas sem se queimar chamou a atenção dele?

__Sim, esta escrito isso sim. Era o Senhor falando com Moisés!

__Exato! E o quê disse Deus, quando Moisés se aproximou da sarça?

O interlocutor, sem tirar os olhos dos meus, disse:

__”Tire as sandálias dos pés, pois o chão onde pisas é solo sagrado”.

__Pois bem, meu estimado ancião, se o chão onde ardia a sarça era sagrado por estar acontecendo ali uma manifestação de Deus... Quanto mais sagrado é o ventre que gerou Jesus!... Os seios que o amamentaram... As mãos que cuidaram e protegeram... O colo que embalou seus sonhos... e a boca que transmitiu os ensinamentos a Ele???

Os olhos do velho sábio marejaram-se... Era quase palpável o profundo respeito e amor que nos envolvia naquele instante.

Aquele homem, tocando com um dedo minha medalha, foi dizendo:

__Não havia melhor lugar para você colocar essa foto aí, bem perto do seu coração!

Segurei em sua mão... Iríamos chorar, os dois. Mas nisso, seu ônibus chegou...

Nos despedimos num aperto de mãos mais forte. Ele embarcou com mais algumas pessoas, e mesmo se houvesse lugar para ele se sentar, permaneceu em pé junto ao vidro de trás do veículo.

O ônibus partiu...e, até o momento em que o ônibus permaneceu no horizonte ao longo da rua, nossos olhares não se desligaram e os corações ardiam e batiam fortemente...

Então; eu pude compreender que aquele instante, foi um momento do Espírito Santo, que fundiu por amor, o meu coração ao daquele simpático velhinho...

Entendi que a linguagem do amor é maior e mais poderosa que todas as falas.

Vislumbrei que a caridade e o respeito pelo próximo e por seus valores removem montanhas e aproximam os corações, deixando de lado tudo o que nos separam e isolam, para encontrar o que une e nos tornam fortes e iguais, num amor renovado com a presença de Deus...

Presença de Deus... Presença de Deus...

Sem cerimônia... Tirei meus sapatos e meias, enfiei-os na sacola e fui embora a pé para meditar no tinha acontecido e pensei...”Hoje, a sarça sagrada ardeu novamente em um ponto de ônibus...chão sagrado...eu descalço...e com Maria em meu peito... Fui embora feliz e contente... Louvando a Deus, tão somente.

Opus Sewaybricker

09/07/07

Opus Sewaybricker
Enviado por Opus Sewaybricker em 19/08/2007
Reeditado em 16/09/2007
Código do texto: T614382