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Cabelos brancos

Salta aos meus olhos mais um, mas não me causa surpresa. Ao longo de minha vida apenas um por vez sempre dera o ar de sua graça. Admirei-o e não me espantei. Digo isso a princípio, mas eis que olho e logo ao lado vejo mais um. Agora surpreso vejo que não é mais um acontecimento fortuito e ordinário. A matemática, essa área a que sou pouco dado, pediu-me um esclarecimento. O que parece ter demorado muito, mas falo de microssegundos em que pareço tomar consciência pela primeira vez em que um e um são dois, mas isso, o resultado, pouco importa. Eis a verdadeira constatação, a de que envelheço.
Pensarão que o espanto se deve ao medo, mas não. É mais a curiosidade de ver o novo, apesar de velho. O que não muda está morto lembra o bom Deus. Ele, Deus, lembra-me também que ao menos o tempo passa diante da minha mania de não mudar velhos hábitos. Não mudar os velhos será minha perdição, mas ao parece só consigo inovar na arte de vegetar, em resposta a ela digo, com meus cabelos brancos, que ao menos envelheço.
E o primeiro sinal além dos os anos foi a matemática, afinal não se tratava mais de um único fio, mas de dois. E o que isso me proporcionaria? Cabelos novos.
Eu que da cor da terra já fui loiro e ruivo também sou compelido a ficar de cabeleira branca, coisa que é moda entre muitos hoje e que só não aderira por medo, afinal não sou tão jovem e a desculpa de minha pouco idade para explicação de meus erros já não serve mais. Talvez ficasse feliz de cabeleira branca, mas ainda assim seria ridículo. Anote: o que interessa ao mundo é a aparência.
Mas são tão discretos, meus cabelos brancos, que ninguém, ainda, os notará, a não ser alguém que deveras me ame, existe tal amor?
Estou envelhecendo, uma verdade, a outra inevitável também é a morte. Estou a morrer como todos e de repente a morte temida surge de alguma forma. Por hora, são os cabelos brancos, por hora, disfarço que sou jovem e preservo o olhar e sorriso benevolente da vida para com a juventude. Ainda tenho as ilusões comuns aos jovens, mas sobretudo ainda posso tê-las.
Cabelos brancos. Meu pai os sustenta desde que o conheço e minha mãe sempre lutara contra eles, tornara-se loira, como dizem alguns especialistas em comportamento das mulheres dessa idade, a terceira idade. A brasileira não envelhece, fica loira.
Eu aos 28 confirmo a teoria genética. Mendel e suas ervilhas explicara meu destino, de filho de minha mãe e de meu pai, antes mesmo de eu ter nascido.
Pouco tempo se passara entre a descoberta do número dois e em um olhar mais atento percebo que não são mais dois, mas três. Próximos como as três marias. Excito-me ante a mudança natural e aparentemente rápida.
Por que não os pelos de cores variadas de minha barba a ganhar mais um tom? Não, por hora só os cabelos e por hora lembrar-me de manter a barba. Não por causa da idade, mas porque a ideia de uma barba branca não me agrada.
Não estou preparado para a vida, nunca estive, e quem está? Mas meus cabelos brancos trazem a mudança amena entre uma fase e outra desta.

Sérgio da Luz
Enviado por Sérgio da Luz em 08/01/2018
Código do texto: T6220672
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Sobre o autor
Sérgio da Luz
Rio das Pedras - São Paulo - Brasil, 32 anos
20 textos (336 leituras)
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Sérgio da Luz