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O meritíssimo e o meretrício

Ainda moço, ele foi aprovado em concurso para juiz. Empossado, passou a exercer a atividade naquela empolgação que só os jovens sonhadores trazem dentro de si. Ele pensava poder mudar o mundo.
Ao assumir o cargo na pequena cidade, o magistrado, aos poucos – um jantar aqui, um almoço ali, um regabofe acolá -, penetrou na sociedade local e passou a ser tratado como as mais importantes autoridades.
Os jantares, almoços e regabofes evoluíram para participação no Rotary Club. Se era associado àquela instituição internacional, por que não pertencer à Maçonaria? Convite feito, proposta aceita, ele passou a vestir-se de paletó preto todas as noites de quinta-feira e, depois das reuniões, invariavelmente, com seus pares maçons, enveredava pelos cabarés da cidade.
Depois do trabalho e da maçonaria, ele  transmutava-se em “meretríssimo” e, nessas
incursões putanheiras, conquistava a amizade de todos: cafetinas, prostitutas, garçons e leões-de-chácara.
O melhor conceituado puteiro da cidade (não me perguntem quem o conceituou) abrigava um par de gêmeas graciosas que protagonizavam números de danças e shows eróticos. As meninas eram as mais requisitadas pela clientela masculina.
Como? Não. Não sei se ele chegou a utilizar os serviços sexuais daquela dupla morenidade.
Numa manhã de sexta-feira, ele recebia reclamantes e reclamados para audiências de conciliação; escondido atrás de grossos processos, entretido com seus despachos, ouviu a escrivã anunciar: “Aldeneide da Silva Paranhos e Odeneide da Silva Paranhos, contra Josefa Dias de Oliveira, processo 34309/94”.
Ao levantar a cabeça, Juiz Mangabeira viu as morenas idênticas em curtos e idênticos vestidos encarnados, com idênticos sorrisos marotos, dirigindo-lhe idênticos e insinuantes acenos de mão. Ele tentou manter a calma, mas as pernas apresentavam idênticos tremores e idênticos filetes de suor brotavam-lhe dos lados da fronte.
A escrivã começou a qualificação por Aldeneide: nome, endereço, RG, CPF... Quando perguntada a profissão, a morena dirigiu-se ao magistrado e, estampando amplo sorriso de cumplicidade, falou: “Olhaí, doutor...”
Juiz Mangabeira limitou-se a dizer: “Bota bailarina!”
Na curtíssima audiência, conseguiu-se uma conciliação que agradasse às prostitutas e à cafetina questionada. Depois de assinados os papéis, as três, em uníssono, ao cruzar a porta de saída, deixaram o convite: “O doutor juiz anda sumido... Apareça por lá.”

e-mail: zepinheiro1@ibest.com.br

Aroldo Pinheiro
Enviado por Aroldo Pinheiro em 26/08/2007
Código do texto: T624288
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Sobre o autor
Aroldo Pinheiro
Boa Vista - Roraima - Brasil, 63 anos
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Aroldo Pinheiro