Conselho de mãe

Com todo respeito a todas as profissões: cientistas, pesquisadores, médicos, artistas, professores, cozinheiros... Não existe nada mais difícil do que ser mãe ou pai, que integra todas e outras tantas profissões. Aliás, ser mãe (ou pai) não é difícil: todo mundo sabe o caminho e aqueles que não conseguem pelas vias naturais podem recorrer aos avanços da ciência e ter seu desejo atendido. Mas, criar filho é a coisa mais difícil que existe no mundo.

Quem ainda não os tem não pode saber se concorda ou não com o poeta (filhos melhor não tê-los, mas se não temos, como sabe-lo?) e a este instante deve estar imaginando que minha tendência é supervalorizar essa profissão não-remunerada que, na maioria das vezes, traz mais prazer, mesclado com doses altíssimas de preocupação. Porém, aqueles que já tiveram ou ainda têm rebentos em casa vão concordar.

Você nunca sabe se está no caminho certo e quando vem a quase certeza, chega a dúvida sobre onde aquilo tudo vai dar. Houve um tempo — menos do que se imagina — em que, para criar crianças, era preciso apenas um pai, uma mãe e uma avó para estragar os ensinamentos. Com as mudanças dos tempos modernos, os pais foram ficando cada vez mais afastados e correm o risco de cair em extinção. Mal participam da fecundação e já viram objetos supérfluos.

As mães tomaram os lugares dos pais, engrenando em um corre-corre cotidiano que vêem seus filhos crescendo entre uma e outra festa de aniversário. As avós, estas continuam estragando os netos — que é sua verdadeira função — mas também tomam conta deles, repreendendo, dando aqueles tapinhas básicos entre carinhos e pedidos de desculpas. O que gera uma confiança excessiva dos pequenos, sabendo que, basta uma lágrima, para o mundo vir a baixo.

Em contrapartida, surgiram um sem-número de profissionais que ocuparam o lugar de orientar nossos futuros adultos. Hoje são hiperativos, têm deficit de atenção, transtorno disso ou daquilo. Acredito que uma parcela tenha, mas não esta quantidade enorme que se vê atualmente. Com três, quatro anos, já dominam o ambiente em que vivem, repetem os gestos dos adultos e vislumbro aí o maior problema. Quando o adulto não está presente, quando o modelo é falho, não há como a cópia sair perfeita.

Se nós, por falta de opção, mas por muito comodismo também, entregamos a outros (e aí está incluída da televisão) a educação dos nossos filhos, seguindo as idéias modernas de que não se deve pressionar, têm que respeitar os espaços, dar maior liberdade, não podemos reclamar depois das respostas atravessadas, dos enfrentamentos diretos, do resultado daquilo que plantamos.

Mês passado, vi a matéria de uma mãe que subiu um morro do Rio para buscar o corpo de seu filho. Ela não clamava por Justiça, nem mesmo queria saber quem o tinha matado. Determinada, talvez já cansada das justificativas da vida — é pobre, não teve oportunidade, o pai abandonou cedo — subiu onde as autoridades não chegam e encontrou o corpo. Chorou um pouco, arranjou um lençol e junto com alguns parentes, desceu.

Com certeza, nunca mais voltará ao noticiário, a não ser que tenha que subir outro morro, para recolher outro pedaço seu. Mas aquela mulher, semi-analfabeta, negra e calejada, disse uma frase que será meu lema materno para o resto da vida: “filho que não ouve conselho de mãe, ouve “coitado” depois”. Aquela mulher esteve presente, acompanhou mostrou o caminho, mas o filho não ouviu. Qual o destino, então, daqueles criados ao vento? É preciso tomar as rédeas, porque eles crescem mais rápido do que nossa própria percepção.

Suzy

05/10/05

SUZY
Enviado por SUZY em 24/10/2005
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