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Espelho, espelho meu...

Vestido branco e Marcha Nupcial não combinam com elas. Ser dona de casa então é quase uma ofensa a sua dignidade, a sua independência, conquistada a custa de muito sutiã queimado em praça pública. Estão longe de serem balzaquianas. Aliás, Balzac se surpreenderia, e muito, com essas mulheres. Elas odeiam parecer que tem mais de 30 anos, isso sim é um verdadeiro horror. E haja Botox para tentar vencer essa inevitável luta contra o tempo. Digo inevitável, pois, queiramos ou não, o tempo passa. Não o controlamos como gostaríamos. Nenhum de nós tem esse poder. O tempo passa, e passa rápido, muito rápido.
 
Essas mulheres sentem orgulho de dizerem que trabalham 14 horas por dia e que quase nunca tiram férias. Quando recebem uma promoção a comemoração é no melhor restaurante, com as amigas, claro, e muito Kir Royal. E basta elas se reunirem para surgir a lamentação da falta que faz um grande amor. Mas o tempo é curto. E para elas o sucesso é mais importante. O amor fica para depois, e depois. Não há espaço para o sentimento. A razão deve prevalecer. Não há tempo para sentir. Isso era privilégio das suas avós, bisavós. Não delas.
 
Como o tempo é pouco e o dinheiro é muito, elas compram tudo o que precisam. Compram, por exemplo, um ótimo aparelho de DVD com o melhor home-theater para, na sexta-feira à noite, ao chegarem em casa tarde do trabalho sem tempo para irem ao cinema, poderem ter direito a um pouco de diversão e menos solidão.
 
Para essas mulheres superpoderosas que lutam contra o tempo, o ideal seria irem a uma loja onde pudessem comprar amor, alegria, felicidade. Para elas seria simplesmente fantástico poderem entrar numa loja glamurosa, cheia de espelhos, pararem em frente a um deles para perguntar: “espelho, espelho meu, de qual sentimento preciso eu?”. O espelho responderia, ela passaria no caixa e pegaria sua pílula com o sentimento que precisa, pagaria, poderia ser até parcelado e sem juros, e estaria feito o negócio, em um passe de mágica. A luta das mulheres contra o espelho, seu maior inimigo, denunciador das suas imperfeições, terminaria e ele se transformaria então em seu maior aliado, em seu melhor amigo.
 
Isso tudo pode parecer tema de conto de fadas. Mas, uma mulher se olhar no espelho depois de um dia exaustivo de trabalho e pensar que o que a deixaria mais feliz é a compra de um novo par de sapatos, significa o quê?
 
Uma matéria recém-publicada na Internet falava sobre como a cirurgia plástica faz bem a auto-estima das mulheres e oferece a elas o direito de se sentirem felizes. Uma das entrevistadas declarou, sem o menor constrangimento, que seu novo nariz arrebitado lhe deu mais felicidade e mais confiança para trabalhar. Ela disse ter ficado tão feliz que logo após sua rinoplastia fez uma lipoescultura. Sem dúvida sua felicidade estava então comprada e garantida, para sempre. Ou alguém perde o nariz?
 
E assim elas vão vivendo, gastando seu tempo, seu dinheiro, sua energia comprando coisas como se fossem sentimentos. Apenas esquecendo que sentimentos não estão à venda. Estão apenas em falta.
Mariana Miranda
Enviado por Mariana Miranda em 30/08/2007
Código do texto: T630921

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Sobre a autora
Mariana Miranda
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 42 anos
30 textos (4035 leituras)
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Mariana Miranda