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"O Macho" a (machina) preferida

No dia em que escrevo esta crónica, há uma particularidade. É último dia do mês de Agosto e vésperas de fim de semana. Este mês que agora termina, é conhecido entre nós, que vivemos aqui no interior de Portugal como o mês dos emigrantes, uma vez que muitos deles a trabalhar na Europa Central, aproveitam o período das suas "vacances" e vêm até cá.
Hoje é um dia de regresso para uma grande parte deles e devido ao movimento que verifiquei na A25, ao Auto Estrada que nos atravessa, veio-me à ideia a situação que vos vou contar, passada no mês de Agosto de 1987, portanto há vinte anos.
Num dos primeiros dias do mês, claro, nove horas e poucos minutos, estava eu a começar o meu trabalho burocrático na cidade de Gouveia, quando o telefone tocou.
Atendi, com as palavras habituais, ouvindo do outro lado da linha uma voz de homem, algo agitada que dizia:
- Senhor comandante, eu cheguei de França esta noite, encontrei a minha casa assaltada.
- Por onde entraram os assaltantes? perguntei eu.
- Pela porta.
- Então forçaram a porta?
- Não senhor! Têm chave...
- Quando foi? Continuava eu...
- Há quinze dias mais ou menos...
- Então sabe quem foi?
- Claro que sei!
Tive logo aí o presentimento de que havia um conflito familiar, e, dentro da experiência que aos longo dos anos tinha adquirido disse-lhe:
- Aí nada se vai fazer. O senhor passa aqui pelo Posto, falamos melhor relativamente ao assunto e damos-lhe o devido encaminhamento.
Cerca de meia hora depois aparece o queixoso, um homem na casa dos quarenta anos, acompanhado com uma mulher mais nova, francamente bonita, que não teria ainda feito os trinta.
Mandei entrar, e, dentro do meu gabinete começou a desenvolver-se a história do assalto. O queixoso começou o seu relato:
- Senhor comandante, quem tirou as coisas de casa foi a minha mulher. Nós estamos separados, ela veio em quinze de Julho, foi lá e levou o que quis.
- Estão separados mas só de facto. Ainda não houve divórcio, nem qualquer divisão de bens? perguntei...
- Não, só há meio ano é que eu estou com esta mulher, que por sinal é prima dela, e, ainda não houve tempo para isso.
Aprofundei este romance e fiquei a saber, que esta mulher que ali estava à minha frente, tinha ido três anos antes com o casal para França, indo viver para casa do casal. Tudo muito bem aceite nos costumes locais, pois até ia aos cuidados da prima. Em França começou a trabalhar na fábrica onde o marido da prima também era operário e em turnos coincidentes. O trajecto casa fábrica e vice-versa, era o automóvel o primo. O tempo foi andando e como diz um ditado português, o fogo ao junto da estopa até o diabo assopra,   o namoro aconteceu. Em França o casal separou-se e o marido ficou a viver em casa com a prima da mulher, e, perfeitamente feliz com a troca. A esposa saíu com os filhos e foi viver para outra casa, na mesma localidade. Isto permitia que uns aos outros se fossem mais ou menos controlando.
Perante esta situação, eu elucidei o emigrante de que ali nada havia a fazer. Ambos eram donos da casa, do seu recheio e que sem haver separação e divisão dos bens, não havia base legal que lhe pudesse impedir a entrada, ou retirar o que muito bem entendesse. Afirmei-lhe ainda que como tinha os filhos a seu cargo, que a ex-esposa, até necessitaria mais da casa do que ele própria, porque de momento um quarto apenas, dava para os dois.
Um tanto arrogante, ele disse:
-Isso é que era bom...!
Entretanto entra em conversa a sua acompanhante, que, referindo-se à prima disse:
- Mas ela é má! Não tem nada que mexer no que está. Se é para se dividir, que fique tudo para se repartir no fim. Ela é mesmo má...!
Isto levou-me a fazer aqule papel de moralista, que tantos dizem que o sei fazer bem feito, começando a minha prática:
- Bem! Eu não vejo que ela seja tão má quanto a senhora dis. Ela levou-a para a França, deu-lhe guarida em casa, mesmo depois de estar a trabalhar, podia você muito bem arranjar um outro homem sem lhe roubar o marido. Na vez de lhe agradecer, atirou-a para uma situação que não é agradável, ela só com os filhos e você no bem-bom com o marido dela. Dentro disto, eu pergunto-lhe quem é mais má, a senhora ou ela que está sózinha e mal, tudo por sua causa...
- As faces da mulher avermelharam, Penso que nunca ninguèm pessoalmente a tinha responsabilizado tanto na situação que se envolveu, mas num sorriso feito à pressa, ainda me disse:
- Se ela está mal é porque quer, por que hoje há "machinas" para tudo...
Este termo "machina" é muito utilizado pelo nosso emigrante em França, é um aportuguesamento da palavra "machine", que significa máquina. Aqui neste caso é perfeitamente entendível que ela se referia a um dildo, o vibrador como os portugueses lhe chamam, ou consolador
como é designado pelos irmãos brasileiros.
A minha resposta foi repentina.
- Pois é! Há "machinas" para tudo, mas você não quis nenhuma, preferiu um macho, e, por o macho ser mais útil do que a "machina" é que se criou este imbróglio.
A conversa acabou. Nunca mais vi ninguém daquela gente, recordo-me deste facto com frequência, quando me deparo com certa publicidade estando plenamente convencido que a tal "machina" apenas remedeia a falta de um macho.    
Zé Albano
Enviado por Zé Albano em 31/08/2007
Reeditado em 22/05/2008
Código do texto: T632152
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Zé Albano
Portugal, 66 anos
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