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A Perspectiva do Dragão

        Acendeu o fogo e era uma chama azul tão intensa que ficou ali parada. Imaginou que cor teria o céu. Azul que queima ou azul que esfria? Ponderou. Ela já havia visto o céu lá de cima: o céu era inalcançável.
        Sentiu uma repulsa. Nunca algo lhe foi inalcançável. Repudiou o céu. Repudiou o azul e todos os seus tons. Num ímpeto de fúrias injustificáveis, mas propriamente ditas, pegou o bule.
        O bule. O bule parecia-lhe um pato mudo na escuridão da chama azul. Sem sons. O pato era uma ilusão em alumínio e era frio. Por que não dizia-lhe nada? Fez um barulho. Ebuliu. A água fervida em suas entidades dispersas disse-lhe algo indecifrável, mas ela sorriu. O sorriso de quem constata que não pode alcançar o mundo. O sorriso nervoso do óbvio. Trêmula, não coou o café.
        O cheiro do café lhe provocava uma espécie de naúsea e sentia prazer. Pensava tanto: Coam-se lembranças? Não sabia. Ela consertava os óculos embaçados pelo vapor. Imergiu.
        Quando era criança uma vez queimou o dedo, enquanto sua mãe fazia café. Depois, provou fazer café ao primeiro Ele da sua vida. Foi um desastre. Agora, era especialista em fazê-lo, diante da sua solidão. Era capaz de plantar o café, colhê-lo, torrá-lo e moê-lo. E suas mãos eram tão delicadas. Podia ser qualquer coisa. Só o céu era inalcançável. Vertigem.
        Sentia saudades de queimar o dedo no café da sua mãe. O café era tão bom na solidão, mas era tão frio, decantava. A xícara foi para pia. Ficou lá. O coador não. Estava limpo. Ele coava lembranças e eram tantas que sentia explodir algo em si. Sufocava.
        O fogo permanecia aceso. Nem havia panela. Estava no escuro da cozinha, com seu coador e sua chama. Eram como seis dragões cuspindo fogo sincronizados numa chama única. Ela era oriental. Era época de dragóes.
        Quando era criança desenhou dragões. Depois, tatuo-os em si, como quem pretende roubar a alma do mítico. Inalcancável como o céu. Ela relutava, tanta coisa lhe era inalcançável. Tantas. Mas, a chama não, a chama estava ali toda para ela. Azul.
        Num ímpeto da mãe que zela pelos filhos, tratou de fechar tudo, como que para evitar que a luz se perdesse. Largou o coador ébria. Queria a chama. Queria a chama do dragão que velava suas noites infantis. Queria ser o próprio dragão e alcançar os céus.
        O seu rosto tomou uma expressão tão sombria que tornou-se irreconhecível, não era mais ela, ela era algo que inexistia. Sentou-se. Perdeu-se na comunhão de um azul que queima tanto quanto o céu lhe esfria. Casou-se com a chama, o café decantou e era inodoro. A vida lhe era insípida. Tudo lhe era insolúvel.
        A cozinha tomou um aspecto medonho, era um cenário teatral. A mulher que era o próprio dragão e sua chama. Foi assim, que sufocada, acreditou na alcançabilidade das coisas. O céu lhe era cinza, cinza! Irrespirável. Emergiu.
Lenita Gonçalves
Enviado por Lenita Gonçalves em 31/08/2007
Código do texto: T632380

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Sobre a autora
Lenita Gonçalves
São Paulo - São Paulo - Brasil
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