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AMANDA

Loura, descendente de pomerânios, com traços fisionômicos europeus, Amanda nasceu e viveu com seus pais até os dezoito anos, em Venda Nova do Imigrante/ES. Seus impressionantes atributos de beleza fizeram-na convidada para concorrer ao título de miss Espírito Santo. A princípio, regalou-se com o convite, mas não obteve apoio para vingar a ideia.
Pelo menos, aproveitou a oportunidade para fazer amizade com outras candidatas conterrâneas, a partir de uma prima distante, representando, no certame, a vizinha cidade de Domingos Martins.
Completado o ensino médio, convenceu o pai a mantê-la em Vitória, para estudar Psicologia na Universidade Federal ou noutra particular. Almejava ganhar algum dinheiro como modelo fotográfico ou com alguma outra ocupação.
Não tardou a conseguir trabalho como recepcionista numa agência promotora de eventos. Embora o ofício lhe obrigasse, como dote de simpatia, sentia-se acanhada ao sorrir. Reconhecia usar na arcada superior, para preencher a perda de dois dentes incisivos e um canino, prótese – ponte móvel – feita por protético vendanovense, com claras imperfeições. Os primeiros salários foram quase totalmente aplicados na correção dos dentes. Não fez por menos, buscou profissional de fama internacional, conhecido nas colunas sociais como “dentista das estrelas”. Os implantes dentários no Brasil ainda eram quase inaccessíveis a gente de pouco dinheiro. Contudo o serviço feito em Amanda ficou tão perfeito que nem parecia ser prótese.
Adaptou-se e evoluiu tão bem no turismo que fez curso superior específico da área. Tornou-se fluente em inglês, francês, espanhol e italiano. Chegou a gerente de negócios de uma grande empresa do ramo.
Nas constantes viagens ao exterior, conheceu Charles, ricaço aparentado dos Grimaldi, de Mônaco. O namoro progrediu e culminou em casamento, com recepção festiva no luxuoso Hotel de Paris, na Praça do Cassino, em Mônaco. Lua de mel em iate de amigo rico a singrar o Mediterrâneo, com serviço hoteleiro de bordo, sob lua cheia. Coisa que não é para qualquer um ou uma.
Na suíte, Charles e Amanda - cada um em seu banheiro - higienizavam-se para compartilhar os esperados momentos de felicidade. Já recostado na cabeceira da cama, Charles sorvia uma Moët & Chandon Cuvée e assistia pela TV a uma apresentação do Balé Bolshoi, enquanto aguardava sua linda esposa a sair do banho.
Mal sabia ele do perrengue pelo qual passava Amanda. Ela nunca revelara a ninguém que usava prótese dentária móvel, muito menos a Charles. Ocorreu que, durante os comes e bebes, alguns intrusos fiapos de bacalhau se alojaram entre seus dentes. No banheiro removera a prótese para melhor escovação bucal. Colocada sobre o console, um súbito balanço do iate fez a prótese deslizar para cair no dreno do lavatório.
Dava para ver uma ponta da peça presa ao ralo. Não conseguindo puxá-la com o dedo mindinho, experimentou o cabo da escova de dente. Nada. Até piorou: esse procedimento fez empurrá-la mais para baixo. Sacou uma fita de seu “baby doll” e tentou alçar o aparelho. Debalde. Muito grossa, a fita nem o chegava lá. Ficou animada quando achou um rolo de fio dental. Com o fio dobrado, não foi difícil “pescar” a prótese. Contudo, novo solavanco do iate em movimento fez o objeto cair novamente no dreno. Desta feita, desceu diretamente ao sifão.
Charles já batera na porta do banheiro duas vezes para saber o que de anormal ocorria. Amanda alegava estar tomando uma chuveirada para relaxar. De fato, o chuveiro continuava aberto e quente.
A última chance de recuperação da peça seria desenroscando e abrindo o sifão. O vapor da água a preencher todo o ambiente, somado à tensão da situação, fazia Amanda despentear-se e suar feito tampa de panela.
O sifão, camuflado sob pequeno armário de madeira, não permitia fácil acesso para qualquer desconhecedor da estrutura do iate. Mesmo assim, Amanda, suando cada vez mais, prosseguiu seu intento. Charles já se mostrava igualmente sob tensão, preocupado e curioso.
Desenroscar o sifão também não era tarefa para uma dama. Não obteve sucesso usando a força das mãos. Apelou para uma toalha molhada. Em vão.
A essa altura, Charles, esgotada a paciência, pediu auxilio ao pessoal de apoio embarcado para abrir a porta do banheiro “na marra”. Algo de muito sério certamente estaria ocorrendo. Talvez, carente de socorro.
Destravado o trinco da porta, pediu aos funcionários para deixar o resto com ele. Lá dentro encontrou envolta num denso vapor Amanda descabelada, dentes “aparentemente quebrados” (eram os correspondentes à prótese), suada e sentada no piso, como uma mendiga. Outra mulher! Espiritualista, Charles não via ali sua esposa, mas um corpo carente de exorcismo.
E foi nessa linha de entendimento que ordenou retorno imediato do iate ao continente, bem como assistência médica e espiritual para sua companheira. A interpretação espiritualista de Charles foi a salvação. Amanda assumiu-a como verdade e “deu linha”. No caminho para o hospital, passou a rezar e benzer-se compulsivamente. Implorou a presença de religiosos para livrá-la dos males que passara.
Recuperados do episódio, Charles contratou dentista de alto coturno para implantar dentes em Amanda (por lá, esse procedimento já era mais usual). Pelo que se sabe, viveram uma nova lua de mel e, até hoje, felizes, inclusive com um casal de filhos. Porém, nunca mais a bordo de iate “mal assombrado”.
Roberio Sulz
Enviado por Roberio Sulz em 16/05/2018
Código do texto: T6338316
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Sobre o autor
Roberio Sulz
Alcobaça - Bahia - Brasil, 75 anos
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Roberio Sulz