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Os Anjos do Senhor

Os Anjos do Senhor


Era noite...a campainha tocou.
Eu havia chegado do meu trabalho, muito cansada e com todos os afazeres de casa, me esperando e como todas as noites, imaginando quando iria terminar tudo, fui atender meio desanimada.
Abri a porta e vi que era uma menina, que custei a identificar como tal, parada na rampa do jardim. Muito mal vestida, mais ou menos doze anos, pele escura, cabelo cortado rente, como seria natural de um menino, um pouco desajeitada, um pouco nervosa, não me olhava de frente, com um balaio que continha salgadinhos de aspecto duvidoso. Tentou sorrir para mim e assim estabelecemos o seguinte diálogo:
-Dona, a senhora quer comprar estes salgadinhos? São deliciosos!
-Bem... eu...
-Já está tarde e se eu não vender, apanho quando chegar em casa.
-Como é? Quem vai lhe bater por não conseguir vender?
- Meu pai e minha vó. Sou a mais velha das crianças e tenho que levar dinheiro pra casa.
E sua mãe?
Morreu –disse ela com naturalidade, mas de olhos baixos.- Faz pouco tempo e vó faz os salgados que se eu não vender tudo, fica louca de raiva e aí, já viu,
né ?
-E seu pai, não trabalha?
-Não senhora, ele diz que não é fácil arranjar trabalho e fica deitado o dia todo.
-Mas não é perigoso, você na rua até tarde da noite, onde fica a sua casa?
-Pra lá da Exposição ( o que é muito longe) e eu venho andando com o balaio até vender tudo.
-Naquela estrada movimentada?
-Perigo não tem, já tô acostumada com os carros e ninguém mexe comigo porquê: ( e contando nos dedos) sou feia e não presto pra nada, e ninguém gosta de mim e... antes que ela repetisse tudo que com certeza, ouvia diariamente até gravar, eu perguntei
-Quem disse isto?
- Meu pai e minha vó!
Quando melhorei do mal estar causado pela indignação que me veio, tratei de comprar o resto dos salgados e ela, sem ao menos me responder como era o seu nome, correu descendo a rua e sumiu lá pras bandas da pedreira.
Os salgados eram horríveis e mal cheirosos e nem com muito esforço, os meninos, os cachorros e eu, conseguiríamos comê-los, portanto, joguei-os fora.
Entrei me sentindo péssima e não conseguia esquece-la, algumas noites mais tarde, a campainha tocou de novo e eu precisei descer um pouco para ver quem estava encostado na parte escura, perto do muro. Era ela repetindo tudo como se fosse ensaiado muitas e muitas vezes.
-A senhora quer comprar os salgadinhos que hoje estão deliciosos?
Eu sou aquela de outro dia, que lhe disse que era feia, desajeitada, que ninguém gosta e que apanha se não vender, lembra?
-Lembro sim, hoje quero primeiro conversar com você um pouco e quem sabe, lhe ajudar! Como é o seu nome?
E ela virou-se depressa e saiu rápido para o caminho que leva lá pras bandas da Exposição.
Não voltou mais e até hoje eu fico me sentindo impotente , culpada diante da explícita exploração de menores, fato que infelizmente já é comum na situação do país e do mundo.
Entendi que a situação era real, porque ela não poderia ter tudo aquilo gravado na mente por conta própria, pergunto-me mil vezes por que não tomei uma providência, mas também, como faria?
Ficou claro que, verdade ou não, ela foi instruída para não deixar pistas e além de tudo percebi que ela tinha medo, sentia-se insegura e talvez corresse para não se trair e pedir socorro.
O que mais me preocupa é que esse pequeno anjo mal treinado é apenas um, da legião que Deus colocou no mundo, para poder observar melhor quem ultraja e quem socorre.

 
Pássaro Feliz
Enviado por Pássaro Feliz em 17/05/2018
Reeditado em 17/05/2018
Código do texto: T6338533
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Pássaro Feliz
Barbacena - Minas Gerais - Brasil
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