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BRUXAS

“Yo no creo en brujas, pero que las hay las hay “. De certa forma todos crêem que elas existam até hoje, dentro de cada mulher. É aquele lado mais sombrio, que fazemos de conta não existir. Como se nem soubéssemos que o tínhamos escondido, em um canto pouco vasculhado do nosso ser. Tememos descobrir as coisas feias que já fizemos através dela e culpamos a terceiros por nos terem tirado do sério: os pais, os irmãos, aquela “amiga da onça“, até o cachorro do vizinho! Acredite, ela está dentro de nós esperando um bom motivo para se revelar.
O lado bom de reconhecermos que não somos tão boas assim é se permitir errar conscientemente, apenas por preguiça de fazer o que é certo. Quando no assumimos tal como somos, podemos agir mais livremente e fazer nossos feitiços. Feitiços do tipo da “bruxinha boa do oeste”, que age só pelo bem, ainda que seja pelo bem dela mesma! O disfarce de toda bruxa é ser discreta, o que é diferente de ser dissimulada, afinal aprendemos a gostar do que somos. Quando a vida nos permite certa normalidade e constituímos família, a reclamação mais comum é o sono pesado dos respectivos companheiros, sem perceber que no fundo isso é misericórdia divina. Por quê? Imagine se aquele príncipe encantado dormindo do nosso lado acordasse, no meio da noite e nos flagra indo ao banheiro, descabeladas, sem maquiagem alguma, assim de cara limpa amarrotada de sono? Faça o teste e descubra! Quando levantar de madrugada, antes de ir ao trono da rainha, dê uma paradinha em frente ao espelho, acenda a luz e se olhe. Ainda que sua visibilidade esteja embaçada não pense ser uma ilusão de ótica. Não se assuste, nem se belisque como quem tenta acordar de um pesadelo; é apenas a nossa imagem real e natural. Leva-se algum tempo para entender que é melhor vê-los dormindo e sorrindo como quem está vivendo uma fantasia ao invés de acordarem para um pesadelo real. Enquanto isso, nós nos levantamos primeiro e nos damos ao privilégio de melhorar o visual antes que eles possam cogitar a existência daquele nosso outro lado!
As bruxas de hoje são descoladas, antenadas, vitaminadas! Lembram-se dos “chapéus pretos e ponte-agudos” que eram usados para esconder aquele cabelo tipo palha de aço? Essa técnica já está em total desuso! Agora temos alisamentos para os cabelos mais rebeldes; alongamento para os que demoram a crescer; escova progressiva para um look mais liso natural, além de um variado cardápio de cores de tintas que temos a nossa disposição em qualquer farmácia. Verruga no nariz? Depois do Ivo Pitangui, virou passado. Assim como as rugas de expressão que carregamos por séculos. Podemos até escolher o modelo de nariz tipo Barbie, boca estilo Angelina Julie, lentes de cores diferentes uma para cada dia da semana se quisermos! O vestido preto que mais parecia uma toga, no qual éramos confundidas com a “orça, a baleia assassina”, foi substituído por jeans, mini-saias, blusinhas baby-look. Mas se ainda quiser manter o preto; sem problema toda mulher tem que ter um pretinho básico! Os outros adereços como sandálias, brincos, colares ficam ao gosto de cada uma. Bem como optar por uma malhação para manter o corpinho, ou dietas, e até uma lipo-escultura, dependendo de quanto podem investir em si mesmas.
Como o progresso é lei, nossas técnicas estão mais sofisticadas. Os utensílios arcaicos foram substituídos por alta tecnologia. Os ultrapassados caldeirões, os quais para alcançar a borda, precisávamos de escada e fazer muita força para mexer, virou relíquia de museu. Hoje temos microondas, panelas anti-aderentes, timer e muito mais. Aqueles ingredientes difíceis de achar como asas de morcego, ovos de aranha, pó de pele de cobra e etc (impossível relembrar todos depois de tanto tempo) basta ir a um hipermercado para encontrar os produtos mais exóticos, embalados a vácuo e aprovados pelo ministério da saúde, incluindo a versão light e diet. As poções já vêm engarrafas como o Absinto, vinhos de vários matizes. Aromas sofisticados produzidos por grifes famosas como Chanel, Carolina Herrera, Calvim Klein, Pólo etc... Caso não queira ser reconhecida pelo que compra, nós bruxas modernas podemos optar pelo método delivery. Até o meio de transporte desconfortável de antes, agora é um chique acento de 1ª classe em um avião. Tudo se torna mais sutil, mais leve, a sedução não necessariamente ocorre à contra gosto da vítima, mas são as próprias vítimas que se entregam a ousadia,  encantamento e magia.
As antigas teorias e tradições de que nossa única intenção era fazer puramente o mal, caiu por terra. Embora tenhamos uma personalidade um tanto quanto egoísta, orgulhosa, vaidosa e competitiva; se analisadas por outros ângulos; poderíamos dizer que isso não é maldade e sim vontade de ser feliz. Toda vez que uma bruxaria é bem sucedida, pelo menos duas pessoas se sentem felizes: a bruxa e o seu objeto de desejo. Do ponto de vista de quem partilhava o mesmo desejo que a “tal bruxa”, resta à inveja de não saber a técnica adequada à conquista de seu amado. Alimenta-se então, da mórbida espera de um dia ver aquela bruxa queimar na fogueira. Engraçado: em toda a história nunca se soube de uma bruxa que tenha queimado um ser humano, por mais “bruxa“ que seja!
Apesar dos feitiços e maldições, é uma injustiça que essas dedicadas “alquimistas” sejam condenadas a uma pena tão cruel. Afinal até as crianças sabem que não se deve brincar com fogo! Pensando bem as bruxas é que são as verdadeiras vítimas, são esforçadas, dedicadas, trabalham duramente e sempre são consideradas as vilãs. Nunca conseguem um final feliz e mesmo que omitam sua identidade sempre é desmascarada, confinada a solidão eterna. Será que esse é o merecido fim de quem não pôde mostrar-se tal como é, sempre vivendo como um ser quase invisível, sem poder treinar suas habilidades, relegada a um castelo no meio do nada. Restando-lhe o sapo como companhia e o príncipe terminando com a “songa-monga” da princesa que sofreu, sofreu e em momento nenhum reclamou, mas também não lutou para manter o tipo frágil.
A transformação mais profunda percebe-se no ritual de uma bruxa. Exaustiva prática que leva a perfeição, estudos prolongados de como satisfazer seu príncipe, toda sedução da lingerie, disciplina para esperar o momento exato, criação do ambiente adequado, velas, penumbra. Esse instinto que até hoje corre em nossas veias, herdamos de quem? Essa “intuição feminina”, esse “sexto sentido”, transmitido de geração a geração, que toda mulher sabe que tem. Analisem vocês homens, se essas não são na verdade qualidades? Então, nada disso nos torna bruxas e sim fadas sem asas.
GABI BORIN
Enviado por GABI BORIN em 04/09/2007
Código do texto: T637542

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Sobre a autora
GABI BORIN
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 46 anos
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