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Desenvolvimento e Subdesenvolvimento


Desenvolvimento e Subdesenvolvimento

Meus caros amigos, colegas, parentes, gente boa, bronzeada, sempre alegre, gente bonita, gente simpática, meus companheiros da Terra do Rei, há muito nossa normalidade vem sofrendo com a presença de forasteiros, que tentam a todo custo impor seus costumes, manias, rituais, seu linguajar chulo, enfim, toda a sorte de ações que não visam senão a louca vontade de nos corromper no que temos de mais valioso, nossos valores culturais.
Tomemos como exemplos nossos vizinhos, todos imprestáveis. Ao norte são todos preguiçosos, têm a manha como uma de suas glórias, costumes festeiros em demasia e nada querem com o trabalho. Nossos vizinhos do oeste tratam nossas terras como se fosse seu quintal, invadem nossas belas paisagens com seus farrapos de roupas, seus carros remendados e tudo que é tipo de agregados. Sogras, cunhados, sobrinhos, cachorros se juntam à música de péssima qualidade, em último som, à galinha e à farofa, formando um quadro assustador. São uns porcalhões.
Ao sul temos a convivência com as malandragens, um povo que gasta todo o seu tempo estudando maneiras de nos ludibriar para garantirem a vida sem esforço. Ainda mais ao sul, temos aquele povinho metido, que se acham melhores até mesmo que nós.
Ao leste ,o mar, nosso amigo mar ! Sempre nos agradando com seus frutos. Porém além de suas águas, moram os bárbaros, sempre dispostos a invadir, pilhar e destruir.

Meus caros amigos, colegas, parentes, gente boa, bronzeada, sempre alegre, gente bonita, gente simpática, meus companheiros da Terra do Rei, somos pacíficos e receptivos, não há notícia de povo mais acolhedor que o nosso. Porém, também sabemos reagir à invasão e à tentativa de imposição de valores e costumes vis que a  representantes de outras terras – alguns poucos que ainda insistem em nos visitar- querem nos sujeitar.
Vejam, ainda outro dia, estava eu estava em um edifício comercial na nossa capital, elevador lotado. Quando o mesmo parou em um dos andares, uma senhora que entrava, aparentemente uma cândida senhorinha, bradou a todos:
- Boa tarde!
Minha revolta com tamanha intromissão só não foi maior que minha satisfação ao perceber que todos, sem exceção, ficamos mudos, olhando para o teto como a responder-lhe:
- Não é da sua conta se estou tendo uma tarde boa ou ruim. Não te conheço.
Pior ainda ocorreu na manhã de ontem, quando me dirigi a uma loja a fim de comprar algumas necessidades. Fui logo recebido por uma jovem com o linguajar cantado e sonolento, típico do povo do norte. Pois essa criatura não apenas tentou me cumprimentar, como também me sorriu. Hora, hora, hora! Que conhecimento temos de ambos para tamanha intimidade? Saí do estabelecimento em um salto, ainda atônito, me dirigindo a outra loja, tipicamente de gente nossa, onde fui atendido com a boa educação, a discrição e o respeito à minha timidez, a que estou acostumado.
  Meus caros amigos, colegas, parentes, gente boa, bronzeada, sempre alegre, gente bonita, gente simpática, meus companheiros da Terra do Rei, temos que zelar pelo progresso e desenvolvimento, mas com maior cuidado temos que zelar para a adequada educação dos nossos filhos e netos, para que possamos lhes deixar de herança um futuro pautado na moral e bons costumes. Nos respeitem !
Não à-toa nossos portos se limitam à importação de bens matérias e nada prestam à exposição de nossa gente às modas de fora.
Não à-toa nossa ferrovia nunca trouxeram, nem nunca trarão, isso mesmo, nunca trarão nem sequer nacos das sub-culturas que nos cercam. Continuarão trazendo apenas o abençoado minério, que colore de vermelho nossas casas, nosso corpo, nossa alma, sedimentando nossas convicções.
Não à-toa, nossas estradas esburacadas, matreiramente esquecidas, bloqueiam a entrada de forasteiros.
Não à-toa, nosso trânsito interno, com um semáforo em cada esquina, ruas estreitas, repletas de rotatórias, agentes de trânsito, sempre a nos lembrar de não andar, para que possamos usufruir nossas belas paisagens, e os pais possam ter mais tempo com os filhos na ida e volta das escolas.
Não à-toa temos o campo de aviação mais insistentemente antigo de todas as terras. O que vem rápido não presta
 Meus caros amigos, colegas, parentes, gente boa, bronzeada, sempre alegre, gente bonita, gente simpática, meus companheiros da Terra do Rei estejamos sempre alertas, e que Deus salve a rainha Elizabhet.








08/08/2007                       Eduardo Marcyano
Eduardo Marcyano
Enviado por Eduardo Marcyano em 04/09/2007
Reeditado em 05/09/2007
Código do texto: T638922
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Sobre o autor
Eduardo Marcyano
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 46 anos
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