LIMITE AINDA NÃO

Tenho plena consciência de que, algumas vezes o que escrevo não é conto, nem crônica, nem tão pouco artigo. Mas entendo que aquilo que falo através das palavras pode ser visto ou entendido como um grito (não o grito de Clarice, que sinalizava cansaço), mas uma mensagem, um canto, uma reflexão, um protesto, uma forma de amar ou até mesmo uma maneira de não compreender a falta de humanidade no mundo dos "homens." Obviamente o meu amor pelas pessoas, pelo mundo não impede, nem impedirá guerras, inimizades, nem mortes. Da mesma forma, o fato de eu amar nunca me impediu de chorar, e de chorar interiormente, inclusive lágrimas de sangue. Amar também não evitou separações, indiferenças, nem outros rompimentos de laços. As alegrias em família não impedem que, quase diariamente eu sinta dores semelhantes às do parto. O mundo é falho, falho comigo, falho com os outros. Eu também falhei com o mundo. Portanto, ao contrário de Clarice (que escreveu eu não quero mais amar) eu quero continuar amando cada vez mais a Deus, à vida, a mim mesma, ao próximo.
Talvez irá chegar o dia em que eu pense em viver automaticamente, porém, ninguém pode viver automaticamente. Gente precisa de amparo, precisa da proteção do amor. E, por falar em amor, eu sou privilegiada. Ao longo de minha vida tive o privilégio de ser procurada por inúmeras pessoas: pais, mães, responsáveis, avós, jovens, adolescentes, noivos, casados (sem ser oficialmente) para ser madrinha de batismo, de primeira eucaristia, do crisma, de casamentos, e isso é motivo de muita alegria, de honra, de felicidade, de partilhar mais amor com essas pessoas, não só nesses eventos, mas pela vida afora. E o melhor de tudo isso é que nada fiz, nem doei para merecer tantos e tantos convites.
Ainda não estou cansada. Vou continuar escrevendo mais um livro, mais dois, três ou até mais, quem sabe... E, gradativamente, entre sonho e realidade, entre a minha própria vivência e minhas percepções, eu continuarei dizendo outras e mais outras verdades. Se tiver de dizer verdades duras, direi. Sei que em tudo há limite. Mas eu ainda não cheguei no meu.

Aparecida Ramos
www.isisdumont.prosaeverso.net
Inspirou-me: O grito (Clarice Lispector)
Foto: Ontem, visitando nosso "pedacinho de chão."

Fotos do lançamento, no Site do escritor:
www.isisdumont.prosaeverso.net
Beijos.
Aparecida Ramos
Enviado por Aparecida Ramos em 04/08/2018
Reeditado em 07/08/2018
Código do texto: T6409716
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