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Me despi pra você...

Maria Antônia Canavezi Scarpa

Quando se é impulsivo, os erros fluem com maior rapidez e nem sempre se tem como voltar atrás, os estragos podem ser grandes e o incompreensível passa a ser um fardo, peso que talvez altere todo um segmento de vida, um futuro com desculpas sem volta.

É quase sempre uma constante a carência nos tornar cegos, mediante determinadas atitudes arrebatadoras, a razão perde um pouco a noção e enfraquece de tal maneira, que quando a realidade nos cutuca, sobra um sorriso amarelo e um tremor de escárnio. Não se tem como ignorar a surpresa que causamos à nós mesmos. Um  momento nefasto, mas que seja colírio e *dolcezza para o nosso ego, pode ser decididamente o nosso maior algoz em iguais proporções, dois pesos e duas medidas para o mesmo tempo.

Daí vem o arrependimento cheio de por quês...como se procedendo assim, sejam amainadas as nossas culpas e os nossos desatinos; muitas vezes cometidos com tanta ingenuidade, que nos vestimos com laços e fitas, achando que isso possa nos isentar das culpas. Agindo nessa maldita lógica, foi que me despi pra você, literalmente de coração e alma, fragmentei minha vida e minhas vãs emoções de tal forma, que qualquer lágrima ou riso histérico não poderão recompor, restaurar esses cacos que ficaram espalhados pelo chão. Na ânsia de expor o meu interior, dilacerei a única virtude que me restava intacta – a sensatez; por tanto tempo aprisionada em mim, para que fosse única, já que nunca permiti que houvesse uma sombra destoando a sua matiz, primei sempre pela harmonia interior..

Contou para esse decisivo erro, uma vértice que abriu brechas, escancarou minha sede de ser protegida sem precisar pedir para ser; já fui falando tudo, abrindo minhas páginas, ligeiramente emboloradas, para um sol desejoso de jogar seus raios em mim, sem me proteger, sem filtros para barrar essa voluptuosidade, me queimei, seriamente, os danos foram irreparáveis. Afinal eu estava nua, expondo as minhas mais sensíveis emoções. Foi a entrega absoluta da minha nirvana, rasguei qualquer vínculo de uma personalidade forte, silenciosa à uma natureza que não moldei para mim, esse foi o meu maior castigo, mentir para mim mesma que eu era imbatível, uma bela troça.

Só fui corajosa na primeira investida, na segunda me tornei um cordeiro submisso  lambendo o dono, fui aos extremos, arranquei minhas próprias raízes e o vento ainda que leve indo para qualquer lugar, me fez um trapo, esvoaçou comigo, agora não fico mais de pé, percebi que mesmo que rasteje não irei a lugar algum. Despida da forma que estou, sinto frio e não há nada que possa me cobrir.
Tília Cheirosa
Enviado por Tília Cheirosa em 07/09/2007
Código do texto: T642649

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Sobre a autora
Tília Cheirosa
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 64 anos
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Tília Cheirosa