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Comodismo Musical

     Eu ia começar essa crônica com alguma coisa do tipo: “pessoas deveriam ter um pouco de senso crítico e mente aberta para a música...”; e daí?

     Se um dentista é um mal profissional, ele perde os clientes e até mesmo o registro. Se for um cabeleireiro, idem. Se for um professor que não tem didática, os alunos não perdoam.

     Mas, se for “músico” e a última coisa que pode acontecer é chamar o que ele faz de música, pronto, vende milhões.

     A música está sendo tratada como uma espécie de sub-classe, com os padrões totalmente inversos das outras classes profissionais.

     Existe um tipo de alergia a melodias com mais de cinco acordes, ou que tenham poucos acordes mas bem produzidas, com bons arranjos e, conseqüentemente, boa musicalidade (Beatles??). Em contrapartida, há o vício por músicas com nenhum acorde, quase sem melodia, aquelas que qualquer um com computador e um programa de mixagem faz. Sem contar que música desse tipo, aliada a um programa dominical e um jabá vende como limonada geladinha no deserto.

     É tudo muito linear: introdução de violão; primeira parte xarope; refrão quase gritado; volta para a parte xarope, só que com mais percussão e cordas do que na primeira vez; refrão gritado; refrão gritado com mais cordas ao fundo; fade out.

     As músicas antigas, mesmo os estilos mais simples, tinham sempre um “plus”, um “brinde”; ou, em linguagem musical: uma cadência, uma subida de tom, uma inversão de baixo, uma modulação para um modo relativo, um instrumento que para e depois volta; uma parte na qual a guitarra acompanha, mas na outra, ela “canta” e o cantor responde; um riff que só existe naquele momento, não está nem no início e nem no refrão.

     Temos músicos que se dedicam, que lutam bastante para fazer algo bem feito, porque sabem que a música não foi feita só para divertir, mas também para analisar, informar, conscientizar. Todavia, os patrocinadores, imprensa, público, não dão a mínima, ao passo que uma prosaica rima que tocou no Domingo está na boca do povo e prolongar-se-á pelos próximos quatro meses.

     Digo isso por todas as vezes que me disseram: -“Como você consegue ouvir isso? Essa música é passado!”; como se música dependesse de tempo.

     E, sinceramente, não sei como uma pessoa consegue ouvir funk. O que tentam chamar de música tem a mesma batida, não importa a música, e a letra só fala de bunda. Com qual parte do corpo ouvem isso? Os pagodes atuais não se salvam: um bando de homens em cima de um palco, dando dois passinhos para lá, dois para cá e cantando a sua dor de corno. Forró? Está mais comercial do que a Coca-Cola®. E como os vocais gritam! Acho que só sabem gritar e rebolar...

     Tudo que é demais enjoa; grito, solos, distorção, dor de cotovelo, músicas longas e repetitivas. O YES, por exemplo, que é uma assumidade em progressivo, não me agrada, justamente por essas razões.

     Entendam, de maneira alguma quero persuadi-los a ouvir rock, meu gênero predileto, até porque também existe muita coisa ruim no meio. O que quero dizer é que tem muita coisa boa fora dessa ditadura musical. Jazz, Blues, Fusion, Clássico, Bossa Nova, World Music, Soul são alguns exemplos. O que acontece é que as pessoas ignoram completamente a existência desses gêneros e falam que é ruim.  Não conhece a fundo, não critique; não gosta, reconheça o valor e respeite.

     Talvez, não seja algo cultural, afinal, pessoas sem o que chamamos de cultura sempre existiram. Mas antes elas ouviam e diziam: - “Esse negócio esquisito aí de fundo até que é legal!”.

Ou talvez, essa seja a cultura do Brasil, e nós que não somos fanqueiros, pagodeiros e micareteiros (entre outros) ficamos na contramão da história.
Lorrayne Renho
Enviado por Lorrayne Renho em 10/09/2007
Reeditado em 10/09/2007
Código do texto: T646315

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Sobre a autora
Lorrayne Renho
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 32 anos
28 textos (991 leituras)
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Lorrayne Renho