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Lente da Verdade

      - Luz...
      - Ok!
      - Câmera...
      - Ok!
      - Ação!

      Anos atrás, quando percebi que o cinema publicitário não seria responsável pelo meu sustento futuro, decidi abandonar o set. Sem arrependimentos. Sem atrasos. No entanto, sofro desde esta época da fúria inocente das pessoas que, talvez entorpecidas pela imagem glamurosa deste mercado, não aceitam que chance tão primorosa seja desperdiçada. “Mas, cara, imagina ver um comercial sendo feito!”.

      O comentário acima costuma ser o erro número um. O trabalho do produtor não é “ver” como o comercial é feito, e sim, fazê-lo acontecer. Entenda-se por isso a gestão dos ânimos bipolares da equipe, o controle orçamentário das locações e cachês vergonhosos, o direcionamento logístico de cada etapa da filmagem, a capacidade de não interferir com violência a cada solicitação tardia, a habilidade em administrar a falta de reconhecimento e a inexistência de horas dormidas. “Quando eu morrer, descanso” é a frase mais dita, ironicamente, por produtores que já aparentam total falta de vida.

      Já sei, já sei, você é jovem, desprendido, tem um tênis Allstar descolado, óculos com grossas armações negras, cantarola Arctic Monkeys, Canse de Ser Sexy e The Fratellis e adora uma bagunça. Erro número dois. Grande parte da equipe, após horas exaustivas de trabalho, arremessa os equipamentos no primeiro carro disponível e corre para casa. Os que optam por não descansar o fazem porque estão agendados para outros trabalhos e “tempo é dinheiro”. Certa vez, após a filmagem de uma famosa marca de cerveja, organizei as dezenas de latas que não foram utilizadas para que a equipe fugisse um pouco da rotina e aproveitasse aquele raro momento de tranqüilidade. Resultado: os poucos que ficaram fecharam os olhos após meia latinha, enquanto um maquinista esfriava a cabeça alisando a testa com a lata gelada. Puta festa, né?

      “Mas isso é exceção! Só porque você não suportou, ninguém mais vai?” Obviamente, não. Conheci pessoas que administraram a própria carreira cinematográfica com vontade estupenda e alcançaram o reconhecimento merecido. Equilibraram as finanças e chegaram ao nível de escolherem os projetos que mais desejavam, seja utilizando a equipe como comparativo ou a própria remuneração. Mas nenhuma delas fazia parte do perfil moderninho que imaginamos como fundamental. A maior parte vestia-se de forma rotineira, eram casados, tinham filhos e sabiam que a experiência adquirida merecia, no mínimo, remuneração coerente.

      “Tá bom, mas, mesmo assim, eu ainda quero trabalhar com produção de cinema publicitário!”. Matricule-se em alguma terapia que estimule o controle da ansiedade ou termine algum curso superior. Ao menos, nos momentos de ira incontrolável, você será jogado em uma cela especial. Brincadeira a parte, esteja pronto para o inesperado. Já precisei, em prazo pouco elástico, arranjar quinze gatos para uma filmagem, providenciar um caminhão com terra amarela, trocar dez mil reais por notas recém-saídas da Casa da Moeda, proteger-me sob o heliponto de um famoso centro empresarial paulista para não ser puxado pela hélice da aeronave de apoio, driblar prostitutas e traficantes que insistiam em atrapalhar uma filmagem no centro da capital, localizar dois caminhões carregados de varas de bambus, com circunferência previamente definida e inquestionável e bajular artistas que atualmente imploram pontas em programas discutíveis. Sem contar o recorde de cinqüenta e duas horas sem dormir, as fungadas suspeitas de um famoso diretor, confirmadas quando parte do pó foi cuspido do nariz após um espirro acidental, o comportamento de outro diretor americano que, “magoado” com a equipe brasileira, decidiu fazer greve de fala e passou dois dias se comunicando através de sinais e a insistência constrangedora de um maquiador europeu que não aceitava o meu argumento de que gostava de mulheres. “I will change your mind”. Calma, ele não conseguiu.

      Hoje, percebo que o aprendizado desesperado, que não permitia erros ou atrasos, realçou minha consideração pelos que optam por este caminho cientes do desgaste a ser vencido. O potencial criativo e a determinação constante, presentes em alguns produtores com quem tive a sorte de trabalhar, servem de exemplo para aqueles que suportaram meu pessimismo até estas últimas linhas. Pesquise, converse, entenda, estude e busque sentido nas decisões que defende. Daqui a alguns anos, talvez com o sucesso se aproximando, você “verá” como é feito um filme publicitário. Quanto a mim, prefiro assisti-lo através da televisão. Sem arrependimentos. Sem atrasos.

      - Corta.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 11/09/2007
Reeditado em 11/09/2007
Código do texto: T647699

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 38 anos
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Felipe Valério