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Aqui jaz Mané Bonitinho

   A cidade de BH era o cenário perfeito para Mané B. protagonizar e fazer valer suas cantadas, vontades, fantasias e fetiches. Onde poderia unir com toda certeza o útil ao agradável, resumindo-se a um perfeito vagabundo.
Ele era uma espécie de Don Juan em extinção, desses que ainda diz ser uma “brasa mora”.
  Cinqüentão de origem ignorada, flertava com viúvas, mulheres compromissadas, ninfetas e coroas saradas.
Mané B. não tinha bom senso e nem critérios nas escolhas de suas presas. Exalando mais perfume do que charme à toda fêmea que cruzasse o seu caminho. Nas baladas ou em público, bastava ter alguém com um decote ousado. Lá estava ele, implacavelmente, em primeira mão, falando ao pé-do-ouvido, sempre em baixo e bom tom, quase sussurrando.
  O rei do assédio era capaz de identificar uma mulher ou travesti a quilômetros de distância - a olho nu. Os insucessos de suas cantadas baratas eram hilariantes e muitas vezes caóticas.
  Mané B. colhia desafetos com resultados desastrosos, como tapa, bofetões e safanões com bolsa e tudo.
Ele era a tradução da cupidez e vexame. Por outro lado, era o máximo, uma sumidade para seus amigos, muitos deles adeptos da sua filosofice. Dizem que Mané B. sempre era um gentleman: cortês, o bico-doce de Belô.
  Enquanto muitos homens mofam em divãs de analistas com sua timidez, outros são banais como Mané B., o cara-de-pau.
Ao findar o dia, seu extrato de cantadas batia seu próprio recorde. Dez cantadas no shopping, vinte na feira de artesanato da Afonso Pena, quinze no Parque Municipal, nove no Mineirão, cinco nos ônibus coletivos, uma durante a missa dominical e três no velório do vizinho.
Seus amigos procuravam orientá-lo no afã de que ele atenuasse ou atualizasse  sua performance com a mulherada e ser realmente um cavalheiro, mas que nada, Mané B. não tava nem aí.
A idéia de abstinência por aquele mórbido prazer nunca entrou em sua cabeça.
Obcecado e sem auto-critica, Mané B. jamais acreditou no prazo de validade de sua juventude, ignorando os conselhos e orientações dos amigos.
  Enfim, aqui jaz Mané Bonitinho. In memorian.
Já prevíamos uma morte anunciada, mas nunca esperávamos que fosse assim, com todo requinte de crueldade.
Sergio Pacheco
Enviado por Sergio Pacheco em 11/09/2007
Reeditado em 07/11/2009
Código do texto: T648332
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Sobre o autor
Sergio Pacheco
Sabará - Minas Gerais - Brasil, 59 anos
105 textos (5853 leituras)
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Sergio Pacheco