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Madrugada

As mudanças estão chegando como com a serenidade de um tornado. A vida é mudança, mas, quando mudamos tudo de uma só vez, parece o fim do mundo.
A rádio peão passava as notícias, com acréscimo de sadismo a cada retransmissão. “O jacaré vai te comer”. “Vão amarrar a sua lata”. “ O jacaré é democrático, como qualquer carne”.
Notícias amargas de desemprego vêm abalando o humor de mais de 6.000 trabalhadores braçais e intelectuais, deste lugar.
Notícias ruins que aumenta a ansiedade do embarque e do trajeto do transporte. A fila se fez pontualmente às sete horas. Algumas pessoas quase não paravam em pé, mas tinham que permanecer, ou arriscar perder o retorno. O próximo "Buzu" só 15:30 horas. Não haveria como suportar tamanha espera.
A maioria dos rostos eram desconhecido para o condutor, um homem moreno escuro, quase negro que se colocava, ao lado da porta tentando organizar a fila. E conferir a planilha de embarque.
- Por favor: Embarcar primeiro o “pessoal da linha”. - Se referindo aos colaboradores contratados com carteira assinada e presente na relação de que trazia a mão. A rotina lhe dizia quais rostos pertencia cada nome e a fila se desfaz momentaneamente, com a entrada de mais de trinta homens e três mulheres. O turno da madrugada tinha poucas mulheres.
A tristeza e falta de esperança era marcante.
Ônibus cheio, de corações vazios. Pontualmente de deslocando às 7:10 horas. Levando de volta para casa mais um grupo, após um plantão pesado em destino ao centro das cidades vizinhas e do próprio município.
Um ou outro privilegiado pensava saber as notícias reais das mudanças. Ainda assim tinham cargo de confiança e guardavam sigilos. Prefeririam não saber da verdade. A verdade sufocava.
Eles nada sabiam. Eram apenas boatos. Apenas gerentes e diretores tinham informações do que iria acontecer.
A cada hora, novas determinações ocorriam. Ninguém do terceiro escalão para baixo, tinha a verdadeira informação nua e crua.
Era perigoso saber detalhes.Informações colocava a cabeça a prêmio. Muito mais perigoso se vazasse para a rádio peão.
Isso é o retrato do trabalhador da madrugada em hotelaria. Um trabalho digno quanto outro qualquer. Com mais emoção, na maioria das vezes.
O plantão da noite é o mais difícil, parece que não finda. 23 às 6:40 horas é uma tortura. Ainda há o que esperar. O buzú só sai depois das sete e dez. Há relatório para passar para a próxima equipe. “Plantão tranquilo sem novidades” seria a frase perfeita no livro de ocorrência. Mas nem era sempre assim. A cada plantão os problemas normais pareciam maiores com o acréscimo do cansaço de cada dia trabalhado. Não havia descanso. Seis por um. Um domingo por mês. Apenas um dia na semana servia para repor o sono perdido, ou para resolver pendências do dia a dia. Não há folgas emendadas. Não há feriado ou dia santo. Não há folgas no verão. Férias e família não se combinam.
André estava cansado. Cedo da manhã tinha o corpo moído, como cana em boca de vaca. O cansaço era tanto que o raciocínio era lento. O plantonista das seis horas não chegava. Porque atrasava? Perguntava André? Não havia como atrasar se o transporte chegava pontualmente às cinco e vinte. Será que não veio novamente?
O café da manhã esperava. Não havia fome só um gosto esquisito na boca por conta dos pretinhos tomados durante a noite, quando os chefes dos departamentos liberavam. Não havia café para todos. Na madrugada só há sono, lerdeza e muito trabalho, com hóspede de mau humor. Problemas graves de toda tipo. Café não tinha. Não importava a função. Tinha que fazer. Eletricista desentope esgoto. Carpinteiro troca lâmpadas. aqui tem que ser faz tudo. Rotina impossível de fugir. 
André não tinha forças para pensar em mudança. Mudança é desemprego. 
André era privilegiado por ser da manutenção e acessar qualquer departamento. Havia sempre um lugar para tomar um cafezinho e se manter desperto.
Não há lodo em lugar que passou por mudança. André não tinha forças para pensar em mudança. As duas meninas esperavam em casa. A mulher também. Não podia se atrasar. Seu atraso prejudica o trabalho da esposa.
Cuidava das crianças até o meio dia. Depois do almoço, levava as meninas para a escola, e a esposa pegaria. Dormiria até 20 horas e sairia apresando para o próximo turno novamente. Não havia descanso.
Veria novamente os colegas. Gente nova sem inovação no olhar. A tristeza e falta de esperança era marcante. Pareciam cansados. Estavam cansados. A maioria estudava, pela manhã ou tarde, em busca de crescimento. Outros enfrentavam dupla jornada, como André. O plantonista da manhã chegara. Com rosto sonolento como sempre. André correu para a rodoviária. Mais uma vez pegou o ônibus em movimento. O tempo passava rápido e o carro acompanhava o tempo. André viajou para o mundo dos sonhos. Sentia-se artista no trapézio em movimento.
Outro dia, outro plantão. André a caminho do trabalho. O buzu deu uma queda de asa, na entrada do condomínio. Já chegou? Assustou-se André. Espreguiçou-se e levantou para o começo de mais uma noite de batalha. André que iniciava a batalha desligando a iluminação dos salões vazios.
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A Regina Michelon
Enviado por A Regina Michelon em 12/09/2007
Reeditado em 07/07/2017
Código do texto: T649311
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
A Regina Michelon
Simões Filho - Bahia - Brasil
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A Regina Michelon

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