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O menino a cavalo

O poema é de Alberto da Costa e Silva, um dos maiores poetas brasileiros, embora ninguém saiba disso, nem ele próprio faz questão de que alguém saiba. Mas eu não pretendo falar do poeta, nem analisar o seu poema. O meu objetivo é mais ao rés do chão, a matéria da crônica é como a tiririca, se esparrama por onde quer. Eu quero só bulir com a memória, bulindo com as imagens do poema. Ah, memória, louca da casa, velha desmiolada, que por mor dos pesares não bate bem, nem poderia bater para fazer jus ao seu título, à sua coroa sem cabeça a coroar.

Leio que García Márquez viveu oito anos em Aracataca, e foi o bastante para criar Macondo e uma leva enorme de personagens. Eu vivi os mesmos oito anos num pedaço de terra chamado Matão e não tenho história nenhuma para contar. Tenho para mim que Garcia Márquez ouviu muitas histórias, da mãe e de outros parentes, deixou que a louca da casa espanasse e empoeirasse causos e gentes e, sem que ele desse por isso, se fizeram na cabeça dele as histórias que contou como se fossem dele, memórias dele.

Eu tenho cabeça fraca, de modo algum tenho língua de contador, talvez me sobrem umas visagens, apenas, e com tais visagens, reais ou inventadas pela minha louca endiabrada, posso criar umas quantas imagens, com elas uns quantos poemas. Às vezes as imagens são tão reais que me dizem: Como você se lembra! Não me lembro, não. Invento a verdade. A emoção é verdadeira, só a memória é inventada. Tanto que ninguém acha que é mentira. A invenção nunca é mentira.

Mas o poema “O menino a cavalo” começa com a beleza de uma lua na porta, como as muitas luas da minha infância, entre os galhos das árvores, entre os coqueiros no pasto. Embora fale da lua do selim.

As mãos grudadas no arreio vêm bem a propósito. Embora o homem fale em seguida das rédeas, meio canhestramente: se as mãos estavam grudadas no arreio, como estariam sofreando com as rédeas o monjolo do tempo? O caso é que não é o homem, mas o poeta quem fala das rédeas, ou não falaria dessa beleza de monjolo e tempo.

Monjolo eu não conheci, não me lembro de nenhum, mas a desmiolada que vive na minha cachola inventou dezenas e centenas de monjolos, posso sentir a roda-d’água me lavando o corpo e a alma, e o pilão pilando, não o milho do fubá, mas o milho do tempo.
Pasto e barro não preciso inventar, me lembro de tanto pasto verde, de tanta terra vermelha, que emerjo sem perceber numas madrugadas orvalhadas, puro como o chilreio da passarada, virginal como o primeiro homem da criação.

Sinto-me curvado com o poeta pelo peso das coisas. Esse é já um ato de homem, de dor, de acabrunhamento. Podem ser boas as coisas do passado, mas quando renascem sobre os ombros do homem maduro, ele já não tem forças para carregá-las.

Não importa que diga que nada mudou. Como mudou! É a mesma a paisagem? O gado e o cacto são do mesmo menino? Nem o menino é já o mesmo! O poeta guarda a folhagem do passado enterrada em si, e chora. Por que chora? Porque enterrada, e, portanto, morta. Não tem por que dizer que não se achou depois. Foi a sua ausência que saltou no estribo e partiu para jamais.

A ausência é um troço incorpóreo, mas montou a cavalo e cavalga, infelizmente para fora do cenário. Diz que o potro pisa a marca dos seus passos, até o cavalo rejuvenesceu, é potro, mas pisa a marca de que passos? Já não afirmou que é a ausência que cavalga? É o nada que cavalga.


As águas fluíam, ainda estão fluindo. Levam a infância nelas, para muito longe, para bem perto do meu coração. O longe é sempre perto do coração.

A vida é um desenho breve, uma paisagem de nada, suspensa sobre o abismo. O poeta fala de um abacate sem semente, o bojo onde vivemos, de onde vislumbramos o céu, prenúncio do escuro da morte. O céu das nossas pálpebras. Como no céu das nossas pálpebras o escuro da morte? No entanto, a imagem é boa.

Daí, a orfandade de estar vivo. Certo, sempre perdemos alguém. Estou vivo enquanto alguém não está. Sempre algo finda na nossa viagem pela vida. Sempre as nossas palavras se transformam em silêncio.

O poeta diz bem: a rotina de estar morto! Contemplar a própria morte nas rugas, na barba, nas unhas que crescem. Mesmo depois de morto, ainda crescem.

O pai do poeta desenha o menino a cavalo e acena-lhe. É um adeus doído, abissal. É o pai quem parte enquanto desenha e acena ao menino a cavalo.

Vivemos de adeuses. Não é que eu goste de falar da morte. Esconjuro a morte quando falo dela. As palavras não fazem se materializar a coisa. As palavras repetem que a coisa são só palavras. Não tem existência, é nada, a morte. Palavras, palavras.

O poeta está junto ao pai, morto. O poeta-menino. Só volta nesse embalo das palavras. O poeta e o pai revivem nas imagens que as palavras criam. As palavras, que são nada.

Muitas vezes, sempre, ouço a voz do meu pai. É uma voz forte, pausada, cheia. O meu pai não sabia desenhar, ele falava. A sua voz criava o mundo. Ele não sabia que era um poeta: criava com as palavras. Como Deus, o primeiro poeta.
José Carlos Brandão
Enviado por José Carlos Brandão em 14/09/2007
Código do texto: T652013

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Sobre o autor
José Carlos Brandão
Bauru - São Paulo - Brasil, 70 anos
109 textos (9255 leituras)
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José Carlos Brandão