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Tertium quid


Ouvimos dizer que o poeta costuma se estrepar quando se aventura a sair da sua seara. É o que estou tentando fazer: sair da minha seara e escrever uma crônica. E se o primeiro cuidado para isso é partir de um tema predefinido, acho até que já defini o meu: posso escrever uma crônica justamente em torno daquela primeira frase. A menos que eu esteja muito esquecido do que aprendi em lógica na faculdade, temos ali uma bela proposição: o poeta costuma se estrepar quando se aventura a sair da sua seara.

Lembro que aqui não tem a menor importância saber se a experiência confirma o enunciado. Uma proposição lógica que se preze não dá bola para essas coisas. Declarar, por exemplo, que Carlos Drummond de Andrade era o bamba tanto na poesia quanto na crônica pode significar muito para um candidato a cronista, como eu, mas para a lógica não quer dizer nada. Se é assim, por que não fico de uma vez com a lição da experiência? Simples: porque essa mesma experiência já me provou que na literatura brasileira maus poetas se revelaram bons cronistas e maus cronistas se revelaram bons poetas.

Se insistíssemos com o exemplo de Drummond, a lógica daria uma boa risada na nossa cara e o apresentaria, sem parar de rir, como uma espécie de tertium quid. Nem adianta perguntar à lógica o que é tertium quid, porque ela não vai responder. A lógica é muito ciosa do seu vocabulário e não vai entregar a cruciante expressão de bandeja. Se considerarmos que, nesses termos, não posso saber o que é tertium quid — mesmo porque, se a lógica souber que eu sei o que é tertium quid, ela vai arranjar um outro quid para segurar o Drummond (mas por que o Drummond? por que não segura o Wittgenstein, que é um horror solto por aí?) —, o jeito é convencer-me de uma vez por todas que eu não tinha nada que pensar em lógica para começar a escrever minha crônica, que por sinal mal podia suspeitar que estava entrando num mato sem cachorro. O cachorro seria a própria lógica, mas ele também se perdeu.

Pensando bem, a proposição, sem precisar de lógica alguma, está se revelando verdadeira; eu, por exemplo, com essas poucas linhas já estou todo estrepado.

Mas, se não fui bem nessa primeira tentativa, não seria nenhum absurdo, bem consideradas as coisas, dizer que temos ali uma crônica sobre a dificuldade de escrever uma crônica sempre que buscamos soluções descabidas, como no caso da lamentável idéia que tive de recorrer à lógica para cuidar de um problema que não é da sua seara. Só que agora já estou dizendo que a lógica, como os poetas, também tem seara, o que me obriga a reformular a espinhosa proposição: o poeta sempre se estrepa quando se aventura a sair da sua seara, ou seja, a seara dos poetas, não a seara da lógica, mesmo porque, como vimos, a seara da lógica tem o nosso Drummond na conta de um tertium quid, não de um poeta.

Vemos que está de volta o tertium quid. Já começo a perceber, dada a insistência, que não vou conseguir nada em minha primeira tentativa de escrever uma crônica enquanto não der um jeito nesse tertium quid. E se o que estudei em lógica ainda pode ser de alguma utilidade, até para que ela se reabilite da bela enrascada em que me meteu, a única maneira de dar um jeito num termo técnico latino é consultar o verbete num bom vocabulário de fisolofia. Tenho comigo o Lalande, que só não agrada aos marxistas. Mas como os marxistas já se social-democratizaram há muito tempo, vou consultar o Lalande mesmo; afinal, o problema não são os marxistas, mas o tertium quid.

Lá está a definição: tertium quid é um terceiro termo que é preciso tomar em consideração, numa análise em que se consideraram apenas dois. A lógica só pode estar de sacanagem comigo. Até onde sei, eu nunca poderia tomar o Drummond como um terceiro termo, já que o tomei exatamente como o primeiro; aliás, esse negócio de primeiro, segundo e terceiro só apareceu depois do tertium quid.

Desisto. Não vai dar para escrever a crônica com esse tertium quid na minha cola. Drummond nunca foi um tertium quid. Todo mundo sabe que, além de poeta, ele transitou como um menino abençoado por todos os gêneros literários, até o stop virou poesia na mão dele. Que história mais maluca da lógica dizer que Drummond é um tertium quid... Como é que ela sabe? Por causa da pedra no meio do caminho? Por causa do anjo torto? Por causa do José? Tenho minhas dúvidas.

Fiquemos por aqui. Meu grande pecado foi não levar em conta as mais simples lições do gênero. Um bom cronista teria arranjado outro tema assim que o tertium quid desse as caras.

(Em tempo: onde leram fisolofia leiam filosofia.)

 

[26.12.2004]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 15/09/2007
Código do texto: T653517

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
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