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A PAZ

A PAZ

Criador em sua infinita e divina percepção da fraqueza de caráter dos seres viventes numa de suas tantas moradas do Universo Cósmico, previu a necessidade de haver Equilíbrio e Harmonia entre eles. Assim nos primórdios da existência ela surgiu. Ele em sua incomensurável Sabedoria a concebeu feminina, como deveria ser. Inseriu em sua natureza cinco essências vitais: Sensibilidade, Compreensão, Complacência, Tolerância e Amor. E por motivos que simples mortais não compreendem plasmou a fragilidade em sua estrutura. Lá estava ela no limiar dos confins da Terra, a espera de um chamado. Até que seus sensores captaram os sinais vindos nas ondas do éter. Clamavam por Harmonia e Equilíbrio entre os seres. Preparou-se então, para uma solitária viagem. adornou-se da delicadeza, revestiu-se de bondade, iluminou sua natureza e partiu. Pequena, tímida, mas resoluta. Árdua caminhada a esperava. Logo no início desertos intermináveis se apresentam à sua frente, e ela convictamente vai atravessando, até que fortes tempestades de areia atiram-na em todas as direções. O vento ruge conclamando os grãos de areia a açoitá-la com mais vigor. Ela sente a força das chibatadas, mas segue em frente. Depara-se com Oceanos e Mares, sem hesitar mergulha nas águas profundas, ora tépidas, ora gélidas, balança no marolar das ondas, resiste as inevitáveis mudança de humor de Netuno, e águas bravias lançam-na de Oceano a Oceano. Mas consegue a travessia. Prossegue o caminho, quando recebe a chuva, não chuva comum, mas um grande temporal. Trovões troam no céu, faíscas magníficas riscam o firmamento, num sonoro aviso ao iminente desfecho. E raios caem sobre ela de todos os lados. Subjugada pela fúria das descargas elétricas, sente sua essência estremecer, mas recupera-se e continua. Ela não desanima. Mal sabe o que ainda está por vir. Mas descobre logo. Sua rota tem encontro marcado com os Vulcões do planeta. Ela não passa incólume. Os Senhores do suspiro do centro da Terra lançam sua incandescência, que infiltram em sua essência. Contudo, consegue absorver esse abraço letal. Retoma a viagem, às vezes para e olha para trás, surpreende-se com o caminho já percorrido e os perigos passados. Surgem as Selvas, Matas, Florestas à sua frente. Nestas plagas reina o paradoxo som do silêncio, no canto mavioso dos pássaros. A Fauna e a Flora contemplam com admiração a sua passagem. Aqui ela encontra a Harmonia e Equilíbrio, essa calma única faz adormecer seu íntimo, descansa então, por breve fração de segundo. Segue a jornada e eis que avista o seu objetivo: a Urbe. Lá está a Urbe ao seu alcance, mas logo percebe que nuvens densas, carregadas, pairam sobre a humanidade, e o sol timidamente desponta aqui, acolá, alhures. Passeia entre os povos, recebe a alegria dos humildes que a clamaram. Sai então em busca das causas de tanto clamor. Repentinamente se vê em meio ao caos, guerra, conflitos, balas, mísseis, ponta de faca, explosões. O cheiro da morte. Ela rapidamente percebe que todo horror serve para acobertar escusos interesses econômicos, sangue de gente inocente girando a roda financeira. Vê a miséria assolando a chamada "civilização". Vê execuções com nome de guerra santa. Vê fanáticos explodindo-se e explodindo outrem, em busca do reino dos céus. Ouve choro e ranger de dentes. Vê insanos levando a juventude à insanidade. Vê sangue escorrer pelas ruas e campos. Procura então os homens poderosos, senhores da vida e da morte. Pseudo Senhores do mundo. É impedida pelos fantoches submissos ao poder, mas consegue ultrapassá-los. E frente a frente com os "donos" do mundo pede a eles que parem com a violência, pois os seres estão se matando e nem sabem o porquê. Como resposta recebe a ironia e o desprezo, risos ecoam pelos palácios e ela sente o escárnio e humilhação. Nada consegue. Cansada e amargurada, impotente, retorna para os confins da terra. E tomada de súbita comoção e de uma estranha indignação, já que não é de sua índole, interpela o Criador:
___ Pai Celestial, Senhor do Universo, Criador do céu e da terra, por que me criaste? Acaso criaste-me para ser desprezada e humilhada? Passei por muitos castigos na minha jornada, mas segui adiante, contudo fracassei na minha missão. O que sou afinal?
E prostrando-se ao chão, quedou silente. E assim ficou, até que no céu um estrondo fenomenal agita as nuvens, parece que o firmamento funde-se com a terra. Ecoa no ar o som de trombetas divinais, e um facho de luz com matizes jamais vistas a envolve. De repente tudo se aquieta, o silêncio divinal. E ela ouve o Criador:

___ "Filha amada não te criei para as agruras. Não te criei para o desprezo e humilhação, mas terá esse desígnio em teu caminho, porque dei o livre arbítrio ao seres da Terra. Tens a essência do bem que há de reinar sobre o mal. Não te foi imposta provações e castigos na tua viagem, na verdade os elementos foram teus benfeitores, segundo a própria natureza de cada um. assim os grãos de areia movidos pelo vento não te açoitaram, mas lapidaram a joia rara que és, e burilaram o brilho da tua luz. as águas dos Oceanos e Mares não se revoltaram contra ti, renovaram teu espírito. Os raios que te atingiram era a energização que necessitavas e as águas da chuva lavaram tua alma translúcida. Os vulcões do Planeta não demonstraram ira, incandesceram tua luz para torná-la mais forte. A Fauna e Flora ofereceram descanso. Tudo fizeram para que pudesses bem cumprir tua missão. Tudo fizeram para que pudesses enfrentar o mais terrível dos animais: o Homem. E no meio do caos, guerras, conflitos, quando sucumbias milhares tombavam contigo, quando te elevavas centenas de milhares eram salvos. Conseguistes plantar no seio dos povos as sementes da Harmonia e Equilíbrio. O teu destino será perenemente este ir e vir, e por milênios continuaras, porque és a minha eterna e sagrada Paz.”

ANDRADE JORGE
ANDRADE JORGE
Enviado por ANDRADE JORGE em 03/01/2019
Código do texto: T6541965
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
ANDRADE JORGE
Jundiaí - São Paulo - Brasil
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