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O PESO DA SOLIDÃO

Eu tive o prazer e o privilégio de crescer muito perto do meu pai. Eu era o caçula dos homens e assim ele me tratava, como o seu caçula. Da sua boca  eu ouvi confissões tão simples e ao mesmo tempo tão profundas que ainda hoje ecoam na minha mente e no meu coração. Eram simples frases saindo da boca de um homem simples, de poucos estudos, mas de fina educação, especialmente no trato com as pessoas.
É até possível que eu tenha visto alguma coisa ou atitude errada na sua vida, mas o meu respeito por ele deve ter servido como de borracha pra apagar qualquer coisa que, por acaso, ele tenha feito de errado.

Agora, já com meu 66 anos, embora eu me sinta como um jovem fisicamente, pois cuidei e cuido bem de meu corpo, mas no meu coração eu sinto que os anos estão passando. De repente aquela placa lá adiante anunciando "70" parece uma provocação à minha juventude atual. Não, mas não são os anos que causam esse insulto. São outros anos que o tempo não conta, são anos imagináveis, são anos abstratos, são anos que só o relógio do coração pode contar. Nesse relógio não são guardados anos físicos, mas experiências vividas, de alegria, mas também de dor.

Ouvi recentemente de uma velha amiga de 82 anos, ela que ainda hoje com seu espírito jovem é capaz de fazer uma festa com a sua presença contaminante. Ela me disse: "sabe, amigo, o ruim da velhice é que as pessoas começam a esquecer de nós e as visitas começam a ficar cada dia mais escassas". Naquela hora que ouvi aquela declaração, eu pude traduzi-la e resumi-la numa só palavra o que, na sua essência, m o idoso sente: Solidão! Solidão é a ausência daquelas presenças que tínhamos no passado. Solidão é saber que tantas experiências acumuladas, agora são desprezadas, subestimada, como que essas experiências pudessem ser fábricadas por meio de algum click para uma tela de computador. Solidão é ver todos os seus conhecimentos, conceitos e aprendizados serem considerados algo ultrapassado, como que essas coisas adquiridas no passado pudessem ser reproduzidas no presente de forma mágica, sem muito esforço, sem sofrimento e sem dor.

Hoje ao lembrar do meu pai, eu posso imaginar quantas lágrimas ele deve ter derramado às  ocultas deglutindo o amargo sabor da solidão. Que pena que muitos filhos só se dão conta desse fato quando eles tambem estão envelhecendo e começam a derramar as mesmas lágrimas que o seus pais já derramaram no passado.

Se eu tivesse ainda o meu velho nesses dias eu acredito que me demoraria mais na sua presença. Muito mais do que me demorei no passado. Talvez eu ficasse com ele sem falar nada, mas apenas oferendo a ele a oportunidade e o prazer de sentir o cheiro que exala de um filho, cheiro esse que só um pai pode sentir. Na sua velhice o meu velho não precisaria de meus conselhos,  de minhas advertências, de minhas correções, certamente que não. O que ele precisaria era, na verdade, seria apenas da minha voz dizendo: pai estou aqui. Estou perto de você e, embora o seu tempo possa ser breve, nós sempre estaremos juntos. Acho que esse seria o melhor remédio para a sua solidão.

Eu lembro quando meu velho partiu. Estávamos juntos,  mas hoje eu sinto que deveria estar ainda mais perto dele. Eu sequer tive coragem de ver seu corpo depois que sua vida se foi. Eu preferi guardar na minha memória aquela mesma energia que ele de vez em quando me aparece nos meus sonhos. Guardarei no coração sua lembrança para que na minha solidão eu possa recordar sempre de alguém que teve o meu respeito e amor por toda a vida.
DJALMA MARQUES
djalma marques
Enviado por djalma marques em 07/02/2019
Código do texto: T6569419
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Sobre o autor
djalma marques
Recife - Pernambuco - Brasil
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djalma marques