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AGO

AGO

– Morro alto, morro grande, me conte o teu padecer.
– Pra baixo de mim, não olho; pra cima não posso ver...
(Contracanção. Peça pseudofolclórica)

O Recado do Morro (Guimarães Rosa)


"Quer ver a view?" Punha ele no colo e, em silêncio, ficávamos na varanda a apreciar o contorno do horizonte (a pedra da Gávea ao longe, o Cristo, bem perto, o Dona Marta, à meia-distância), a acompanhar o movimento da rua, dos prédios vizinhos, o vôo dos pardais de dia, ou, à noite, morcegos passando raspando. Parecia gostar de aspirar a fria brisa com cheiro de maresia que eriçava seu pelo. Aí então suspirava, estremecendo todo o corpinho, como se, só então, relaxasse. "Viu?"
Às vezes, rastreava tudo ao redor, esboçando ganidos, olhar curioso, por longo tempo. Depois, virava-se pra mim, carinha e focinho de quem não está entendendo nada. Nem eu, querido, console-se. Não me encare de forma interrogativa. Pergunte aos morros qual o recado, quem sabe algum responde?
Noutras, dava uma geral e já desistia, enterrava a cabeça no meu peito pedindo proteção, recusando-se a ver a cena, parecia ter fobia de altura. Como censurá-lo, diante da atual estatura dos fatos, do nosso fado, dessa maldita sina?
De volta ao chão, as patinhas no vidro, era capaz de ali ficar horas (embora conferindo, de quando em quando, a minha presença), enquanto eu lia paisagens que alguém descrevera, abismos inventados que provocam reais tonteiras, fingidas dores que deveras sentimos, um corpo de baile conhecido apenas na hora do espetáculo.
"Pecocinho, baiguinha": mal ouvia esse tatibitate canto soletrado, logo se deitava de costas, desarmado, dengoso, pra ganhar carinho. Ainda bebê, inventamos outra brincadeira: "A pulguinha vinha". Com o dedo médio e o indicador, simulava uma caminhada no chão. Ele corria a mordiscar o que teria ali, escondido. Nada. Nunca se tem nada, breve aprenderíamos. Tudo ilusão.
À medida que crescia, o reflexo e a força da resposta aumentavam. "A pulguinha..." Ele, rápido, me alcançava.  "A pulg..." Mordia pra valer. "Essa pulguinha não pode mais passear em paz, que você ataca, Ago!"  Seus afiados dentes começavam a machucar, a me ferir. "Ai, doeu!" Ele diminuía a intensidade da mordida no ato. Lambia, lambia (sua forma de beijar, se desculpando). Eu ria, e ele, em um segundo, reavaliava a situação e, imediatamente, voltava a brincar.
Maltês nascido branco carneirinho, manchas marron-sangue-pisado surgiram e começaram a se alastrar, debaixo dos olhos. O veterinário sentenciou: lágrimas ácidas, o nome do fenômeno. Claro, fosse a vida doce, nossas lágrimas também seriam. Do muito chorar (além do pouco dormir), grandes olheiras escuras me apareceram. Onde andará meu "minino-galoto"? Que admirável mundo novo estará vendo, agora, da janela?

Ana Guimarães
(Texto publicado originalmente na coluna Literapura, do site Nova Literatura)
Ana Guimarães
Enviado por Ana Guimarães em 18/09/2007
Reeditado em 22/09/2007
Código do texto: T657349
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Sobre a autora
Ana Guimarães
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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