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"Nós na Cama"




“ Nós na Cama “

                                                                                  Por Marco Antônio de Araújo Bueno

Se me acompanhou até aqui, meu “carro” leitor, a culpa pela cumplicidade é do pronome pessoal, o “Nós”. Nada pessoal, coisas da linguagem e mais alguma sacanagem (ou...”lacanagem”, se Lacan lhe for algo familiar...) de cunho experimental, científico até, já que estou testando mais uma hipótese, com meu espírito de pesquisador lá no alto; coisa elevada mesmo, mesmo se tratada com humor. Freud, a propósito, é a minha referência predileta quando o assunto é o chiste, o trocadilho, a piada. Ele desmontou deliciosamente a mecânica inconsciente dos “ditos espirituosos” e demonstrou todo o engenho e arte demandados para liberar o riso. Isso, enquanto ia tirando os nós da cabeça de seus pacientes, os conflitos que, via de regra, apontavam para um lugar comum- a cama, este móvel no quarto onde nos deitamos e ficamos imóveis, e sonhamos ou fazemos outras coisas e mais outras, quando a nossa privacidade encolhe, ou a nossa “criatividade” torna-se, assim...prescindível.
A hipótese em questão é sobre o sono, a relação que tem com a idéia de morte, etc., e, aqui, todo o interesse que a crônica despertou é que corre o risco de encolher. Ou não, já que o sono nos mergulha numa obscura zona de prazeres, ainda que decorram da necessidade óbvia de se permanecer dormindo, sonhando.  Aliás, dizia o próprio Freud- “O sonho é o guardião do sono”, e, até para as mais “neuras” das neurociências fica meio artificial derrubar esta premissa freudiana, tão original e tão avessa às técnicas de tomografia por pósitrons e outras aferições cientificamente...confiáveis.
E este é o lado bom da questão. O sono também dá nós, como bem o sabe até o bocejante leitor que, a esta altura da crônica,  quer mais é mandar dormir o próprio autor e que leve o Freud dele pra cabeceira. Então, para não saturar o nosso já estressado cotidiano, deixemos de lado a morte e outras coisas que a gente não pode comprar e não porque estejam elas “pela hora da morte”. Esta benevolência carinhosa, no entanto, não abre espaço para teorias mais leves e atrativas, essas que embalam o nosso aparelho psíquico em celofane com lacinhos cor-de-rosa para emplacá-lo nos “Top-10” de revistas semanais. Isso sim, seria a morte; do desejo, da inteligência (seguida ou não de adjetivos)...morte da própria morte enquanto tema da filosofia.
Também não quero, até por não querer que meu leitor o queira, uma crônica bula das patologias do sono. Sei da importância clínica da insônia, do ronco, da apnéia do sono que, por interrompê-lo tantas vezes numa noite, escangalha o dia e pode evoluir para problemas cardíacos e...a morte?! Mas me permito um certo “cochilo” a respeito. Até porque existe um lado solar(!) da noite. Lembram-se de como Flemming descobriu a Penicilina? Pois foi sonhando com os fungos de seu dia de trabalho. Eu queria é trazer à tona aqueles “fungos” cotidianos que reverberam e luzem em figurações alucinadas nos sonhos. Antibióticos, a gente compra e o Câncer, “ a gente raspa”, como dizia o antropólogo Darcy Ribeiro. A morte, a gente vive. Todo dia.
Esses resíduos do dia, o “resto diurno” de que falava Freud e que, para o filósofo Walter Benjamin, interessavam quando enquadrados, delirantemente, na narrativa maluca do sonho (e não, ao contrário de Freud, quando clinicamente “interpretados”...), é dessa piorra do dia que eu queria tratar aqui. Da coisa pequena que vira fagulha, contra as expectativas do próprio sonhante, do seu entorno ardiloso e de todo a marquetagem de realidade à venda na esquina globalizada. O dia nos empurra versões atrativas, leves. O sonho opera a grande transgressão. Até porque, ele mesmo, nasce de uma transgressão à censura que age, para manter inconsciente, toda a poeira do dia. Que, afinal, é a poeira da História, para o Benjamin, e não a versão oficial que nos “oferecem” a respeito dela. O dia nos empalidece de sustos também. O sonho digere o que se engoliu a seco, metaboliza, distorce, liqüidifica e disfarça o seu próprio feito. Numa encenação vertiginosa, dá nó no pingo d’água do dia. Seja de quem for o dia, todo santo dia e seja o dia de que santo for!
Filósofos, garis, economistas...todos sonham, todo dia. Psicanalistas, garimpeiros,  cronistas- estes que fazem a história leiga do cotidiano, que é um jeito de desatar nós de linguagem insuficiente, sonham também, têm pesadelos, tudo igualzinho a todo mundo no mundo, exceto aqueles que “deletaram” o mundo sem saber que o fizeram. Casos especiais. No mais, as vias alternativas, as “terceiras” vias, as utopias e os escândalos de toda criação, sem exceção, vivem se abastecendo do alpiste onírico de sonhantes pessoa física que se entrechocam numa arena de choros e risos, de crimes e castigos. De infernos pessoais e redenções coletivas.
Observações ingênuas, espontâneas, que surgem do nada, não raro dão nós, não na cama “da hora”, mas na hora da cama. Um meu exemplo, por exemplo: divagava sobre a altura de uma cama em que repousava, do tipo cama “americana”, alta, compacta. Luxuosa e imponente.Ah, pensava dentro do meu sonho, que conforto dormir acima deste chão de mundo e, derrepente...a angústia de me sentir isolado, sem vida, e que se transformou em medo de cair, bater a cabeça e...dormir pra sempre. Pouca coisa, para um caso isolado de sonhar com isolamento. E é nessas horas que me vem a idéia de Benjamin sobre o “passante” e o medo de não deixar meus traços no mundo; ou , de deixá-los em demasia. Uma oscilação entre a incapacidade de registrar a História e o desejo de, desarticulando-a, rearticulá-la e assim, desatar nós, tantos nós. Um nó apenas!? É que Benjamin escreveu exatamente: “(...) Cada época sonha não somente a seguinte, mas ao sonhá-la a força a despertar” Desata essa...
A propósito de ter contornado a relação entre sono e morte, teria eu adulado meu leitor, poupado-lhe algum desconforto? Mesmo quando alguns de nós sabemos que  Ferenczi, psicanalista húngaro da turma do Freud, especulava sobre a vizinhança entre o sono, a morte e...o orgasmo?
Lá na França, aliás, há uma expressão intrigante sobre o orgasmo. Ele é chamado de “la petite mort”...
Bom, eu e a perda dos meus limites!
                         Foi bom?




Marco Antônio de Araújo Bueno
Enviado por Marco Antônio de Araújo Bueno em 18/09/2007
Código do texto: T657380

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Sobre o autor
Marco Antônio de Araújo Bueno
Campinas - São Paulo - Brasil, 60 anos
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Marco Antônio de Araújo Bueno