A Morte de um Amigo

 
               O Levy suicidou-se hoje de manhã. A inverossímil notícia atingiu-me inesperadamente e sem qualquer preâmbulo, como sempre fazem as más notícias. Esta teve sobre mim um efeito paralisante. Meus pensamentos todos sumiram, substituídos por essa frase, gravada à ferro em minha mente, como uma epígrafe sem sentido. Meus movimentos também cessaram e eu era apenas uma estátua de cera em pé, atrás de uma escrivaninha atulhada de papéis, o receptor telefônico pendendo das mãos, um rosto inexpressivo exposto ao público numa sala de escritório. A linha caiu. Dei-me conta de que o impacto do informe tinha me impedido de manter uma conversa normal e assim me inteirar dos detalhes do acontecido. Quem havia ligado era um velho amigo, o Castilho de Ilha Solteira.
               A verdade é que não nos víamos desde que três de nós havíamos partido para outras terras a busca de novas oportunidades na vida: eu para Campinas para arriscar a sorte no setor industrial, o Carlão para Araçatuba para assumir a direção de uma escola e o Levy para Tupã onde foi tocar a lavoura de café da família, isso há dois anos. Há menos de um ano, saudoso dos amigos, com um encontro marcado com eles por iniciativa minha, havia passado por Araçatuba onde mora o Carlão, depois apanhado o Castilho e, junto os três, tínhamos ido a Tupã onde ficamos hospedados por quatro dias no agradável sítio desse amigo nosso: o Levy. Assim, o reencontro fora uma verdadeira festa em que revivemos entre muitas gargalhadas a alegre convivência durante o tempo em que moramos e trabalhamos juntos, e as peripécias da viagem de doze mil quilômetros que havíamos feito de fusca pelo Brasil afora.
               Levy sempre fora um grande folgazão, um pregador de peças nos amigos. Enquanto dirigia meu carro pela rodovia que leva a Tupã, ia imaginando se essa notícia não era mais um trote, mais uma de suas brincadeiras para ensejar outra reunião de amigos, novamente em seu sítio no distrito de nome Parnaso. Entrei no povoado silencioso àquela hora tardia da noite e estacionei em frente ao único local ainda aberto. Relutante, sem querer acreditar na veracidade do fato, desci e perguntei ao dono do boteco se alguma coisa diferente havia acontecido naquele dia por ali. O homem, apontando a sede do sítio que se via ao longe, na baixada entre Parnaso e Tupã, disse: “O rapaz daquele sítio se matou com um tiro na cabeça hoje de manhã”.
               Então era verdade. Meu amigo decidira partir dessa vida por conta própria. Tomei a estradinha de chão batido que passava por aquela casa, agora silente e banhada por uma lua sepulcral, e segui rumo ao velório da cidade onde seu corpo estava sendo velado. Lá ouvindo uns e outros, conhecemos um Levy que não se encaixava naquele com quem havíamos convivido como colegas de alojamento e profissão. Soubemos de uma pessoa triste, cansado de lidar com vacas e roças, inconformado com a situação financeira da família, descrente de amor e sobretudo abatido pela falta de perspectiva. Durante a noite — relataram —, caminhou pelo quarto até amanhecer. Esperou que todos saíssem da casa para seus afazeres e então pôs fim à vida. Ele, que uma vez me dissera enfaticamente, ao comentar um outro suicídio em família, que jamais faria uma coisa dessas.
               Decidimos que ali não era o melhor lugar para velarmos nosso amigo. Fomos para um bar da cidade e nos instalamos — Castilho, Carlão e eu — numa das mesas do salão, absolutamente vazio àquela hora. Como sobrava uma cadeira, concordamos: “essa é a cadeira dele” e enchemos quatro copos de cerveja, dispondo um deles no lado desocupado da mesa. Entre copos de cerveja, taças de conhaque, frango à passarinho e porções de fritas, rememoramos, com a certeza de sua presença em nossa mente, todos os momentos alegres que Levy nos havia proporcionado ao longo de nossa jornada como companheiros em Ilha Solteira. Num dado momento, Castilho disse em tom de troça:
             — Carlão, deixa de ser beberrão, 'cê tomou até a cerveja do Levy.
             — Ei? Eu não tomei nada, não fui eu — defendeu-se Carlão.
             — Como não? O copo está vazio! Olha aí.
            — Eu também não fui — disse eu. — Foi você mesmo, Castilho, não foi? A primeira galinha que canta é a que botou o ovo, diz o ditado.
              — Sério gente, eu não bebi a cerveja do morto.
            — Vai ver derrubamos a cerveja — disse eu. — Vamos olhar em baixo da mesa.

               Bem, não havia o menor traço de cerveja derramada, nem sobre a mesa, nem no chão, nem em lugar algum. Ainda perguntamos ao dono do bar que viera à mesa várias vezes para servir petiscos e bebidas e ele garantiu que, apesar de estranhar aquele quarto copo, não tocou nele, ainda mais que ouvira por alto que falávamos de uma outra pessoa.

               Hoje, muitos anos depois, ainda fico me perguntando: teria sido uma última traquinagem do nosso finado amigo? E aí sempre me ocorre aquela fala de Hamlet aos seus amigos sobre o fantasma de seu pai: “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha vossa filosofia”


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" There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy" — Shakespeare.
HFigueira
Enviado por HFigueira em 20/02/2019
Reeditado em 29/07/2019
Código do texto: T6579385
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