Passadeira mal carater (repost)

Vou começar dizendo, dizendo, não, alertando: "homem macho não faz suflê". Nem de chuchu. E descobri isso, assim, por acaso, sem que nem porque, dito por uma criatura que eu nunca tinha visto antes na vida. Se eu fosse de traumatizar, tinha traumatizado rss A coisa toda começou assim. A moça que passava minhas roupas sumiu do mapa logo no início do ano. Fico me perguntando se estava nos planos de mudança para o ano novo não passar mais minhas roupas ou se fugiu com algum mestre de obras . Sim, porque a minha prima também ficou sem o pedreiro que fazia a reforma da casa dela e, ainda por cima ele levou a faxineira. Bem, voltando ao assunto. Tive que providenciar outra moça pra fazer o serviço . Uma amiga conseguiu e me avisou que a moça iria no dia seguinte pela manhã. Se tem uma coisa ruim de fazer numa casa, além de limpar fogão, é passar roupa. Não consigo passar um lado sem amarrotar o outro. Uma outra amiga me sugeriu comprar um ferro à vapor, mas se não consigo me dar bem nem com um ferrinho convencional, que dirá com um monstrengo fumegando na minha mão. E a moça que veio não cobrou nenhum absurdo. Vinte e cinco reais para evitar um ódio profundo é barato. A moça chegou bem cedo e já encontrou a roupa toda dobrada, separada e o ferro ao lado. Ela olhou os montinhos de roupas e em seguida pra mim e, de novo para a roupa. Já fiquei cismado, mas como ela não disse nada eu também fiquei calado. Minha casa é pequena, grande o suficiente para um cara sozinho, como eu. Sala e cozinha dividem o mesmo espaço e, enquanto eu fazia o café a moça passava. sugeri que ela tomasse um café com leite pois pela hora em que chegou provavelmente não havia tomado em casa. Ela fez um muxoxo que entendi como um não e não insisti. Fui varrer o quarto e passar um pano com cloro no chão. e a moça, lá, passando, quieta. Volta e meia eu sentia um olhar no meu cangote. Perguntei se música a incomodava e ela respondeu que música boa sempre anima. Essa era das minhas. Música boa era comigo mesmo. Liguei o pc, abri a pasta de mpb e quem apareceu, de cara, foi o Taiguara. Nem me dei o trabalho de olhar pra moça, já que música boa era com ela mesmo. Cantarolando fui preparar o almoço. Feijão, arroz, uma carne de panela e um suflê . Não pensem que fiz tudo isso na hora. O feijão é dividido em porções e congelado, o arroz eu refogo para cinco dias e vai pra geladeira e na hora é só ferver a água; meus legumes são todos divididos em porções e devidamente congelados. Assim não me atrapalho e ainda não desperdiço. Como é bom morar sozinho. Perguntei à moça se ela gostava de suflê de cenoura. Ela parou de passar o lençol, olhou para mim, olhou para a cenoura os ovos e o creme de leite em cima da pia. Tornou a olhar para mim e disse. O senhor é muito esquisito, sabia? Levei um susto mas não disse nada, apenas sorri com minha cara mais benevolente. - Esquisito, por que? Me diz. E ela disse. - O senhor tem a casa arrumadinha, cozinha limpinha, comidinha (sentiram o escárnio?) toda arrumadinha na geladeira. E ainda por cima sabe fazer suflê? Hmmm, sei não. Esse "sei não" me soou meio preconceituoso mas ela ainda tinha muita roupa para passar e eu não ia ser malcriado. Depois, talvez. Faltando dez para o meio dia a mesa estava posta. O suco foi de maracujá, do meu quintal. Quando a chamei para almoçar percebi que faltava quase nada para ela terminar o serviço. Acreditam que ela recusou o meu suflê de cenoura? não quis almoçar, nem por decreto . Talvez se tivesse encontrado uma revista Playboy aberta na página do poster ou tivesse visto uma cueca displicentemente pendurada no braço da cadeira ou livros e filmes eróticos espalhados pelo chão, talvez aí ela não achasse o meu suflê de cenoura tão gay. E sou capaz de jurar que ela detestou Elis Regina e MPB 4. Mas como passa bem as roupas que passa.