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PERDOE-ME, MEU FILHO

PERDÃO MEUS FILHOS
Eu adquirí um terreno em Marechal Deodoro/Al
Eu cheio de alegria, com um prazo a perder de vista, morando em Maceió em casa alugada, estava a caminho de visitar um terreno perto da cidade de Marechal, que como o carro em que ia, viajava em sonhos de uma futura residencia, cheia de quartos com jardins de inverno ou verão, sei lá, garagem, ampla cozinha etc. etc., Ah sim um lugar com churrasqueira para a cervejinha de fim de semana.
Ao chegar no local, depois de atravessar muito mato rasteiro e uma vegetação de mangue seco, deparei com um terreno assim: Mato de vegetação de mangue. O Loteamento era em pleno mangue, as lagoas não estavam longe (Nem a praia também, a do Francês é claro), havia buracos de caranguejos e etc. e tal.
Minha primeira providencia foi pensar logo logo em desmatar tudo, para dar início a minha construção.
Se naquele momento tivesse didim, a lógica mandava que eu contratasse tratores e homens com pás, machados e etc., mas felizmente eu não tinha verbas para iniciar o desmatamento. Não me animando mais pela dificuldade encontrada, optei por carregar meu caminhãozinho emprestado, de madeiras para vender para foqueira do São João festa junina que estava às portas, Voltei para casa no fim do dia, com umas duas na cabeça e o caminhão cheio de madeiras retiradas do meu (ainda era) terreno, era 1974.
Não havia até aquele momento uma conciencia ecológica, claro, hoje a área é de construções santuosas e caríssimas, à custa do mangue das madeiras e dos caranguejos que não mais existem.
As Dunas de areias finas e belas, do entardecer vermelho e lindo do Pontal da Barra, também não existem mais.
Os Coqueiros assoviantes da praia do Sobral também não.
Ví lindas fotos P&B de pessoas de sobrinhas e chapéus que andavam de canoa no riacho que corria paralelo a Praia da Avenida da Paz no Centro de Maceió, em 1919. Hoje o Riacho é chamado de Salgadinho e não é mais riacho e sim uma fedorenta e repulsiva sargeta.
Tomava banho de rio numa piscina do Fragoso no Bairro do Bebedouro, era o Riacho Silva, que hoje é a Sargeta Silva.
A Lagoa que de longe é uma das mais lindas molduras para a Sereia Maceió, de perto é depósito de lixo, dejetos, fossa coletivas e aberta de toda população ribeirinha que tem seus quintais virados para a lagoa, visite-os e verás que não há uma fossa seguer, a fossa é a lagoa.
Assim como D. Pedro I gritou o grito do Ypiranga, ou foi um grito de dor de barriga, acocorado ao Riacho Ypiranga fazendo necessidades fisiológicas. Nós também defecamos na natureza, pintando com nossas tintas o quadro desolador que estamos entregando a voces meus filhos.
A Culpa foi da diarréia de D. Pedro e o pior da nossa própria diarréia bruta e ignorante, usamos o pincel da burrice da mentalidade medieval, da produção em massa, da comodidade da humanidade, do consumo superficial, para com tintas de merda literalmente falando, constituir este quadro que vos doei, este país desnaturalizado. do Belo te entregamos o Horrível.
Hoje eu choro junto com as Jubartes, só que meu oceano de culpas não tem como reproduzir meu choro e meu grito:
PELO AMOR DE NOSSOS FILHOS, VAMOS SALVAR O QUE RESTA do quadro magnífico que o criador nos entregou e que Caminha abismado em cara ao rei, descreveu.
Aquí em se plantando tudo dá.... até nossas burrices e porcarias mentais, até nossa brutalidade de defecar uma nova natureza.
 
Torquato
Enviado por Torquato em 22/09/2007
Código do texto: T664125
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Torquato
Maceió - Alagoas - Brasil, 66 anos
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Torquato