A Biografia do Biógrafo Berilo
 
          Sobre os seres, duas categorias abrangem todo o nosso universo, elas têm limites quase infinitos: os não viventes ou os que não têm vida, como a pedra;  e os que a têm, como os minúsculos organismos nas profundezas do mar, ainda desconhecidos nas cavernas dos oceanos, demonstrando essa biológica vinculação entre a água e a vida (do grego, bios).  Refiro-me assim até aos gigantescos dinossauros, que já se foram deixando pegadas em Sousa; também às enormes baleias que ainda sobrevivem, trocando de mar, fugindo dos caçadores, obcecados pelo lucro, que querem vender sua carne e seus ossos. Esses muito grandes animais tiveram ou têm vida (bios), mas nunca tiveram biografia, como esta deste livro, mesmo considerando os volumosos compêndios de zootecnia. Porque bios não significa vida intelectiva, tampouco espiritual; também porque  a biografia, como gênero literário, não é sobre uma coisa qualquer, sobre algum indivíduo, mas sobre a pessoa em si, com “persona” própria que lhe é peculiar, o que caracteriza uma determinada personalidade.
          Ainda no intuitus personae para definir o que seja uma biografia, faria uma analogia, comparando escrever uma biografia com a arte de fotografar. Pois, quem desenha ou fotografa alguém já inicia uma biografia que se completará mais claramente com a explicação discursiva. Nesse sentido, uma autobiografia é o biografado escrevendo a sua biografia, como é o caso de Berilo, fazendo, como se usa comumente hoje, uma self, fotografando a si mesmo e também os circunstantes, nas circunstâncias da sua vida. Aliás, nesse aspecto, stricto sensu, este livro é muito rico em ilustrações que vinham sendo guardadas no fundo do baú, com carinho, fruto do amor que ele sempre dedicou à natureza, às pessoas, aos fatos e às coisas da sua vida, tudo com cheiro e cores do passado. São tais sentimentos que geram um biófilo...
          Eu sou um dos seus circunstantes, não me encontrei nos retratos, mas nos fatos que se referem a Berilo enquanto estudante, professor, dirigente escolar, homem público, até atingir as funções, que também desempenhou, de Reitor da Universidade Federal da Paraíba e de Secretário de Estado da Administração, na sua Paraíba; ainda, enquanto menino e adolescente cultivador da roça, nos arredores de Serra Branca, sua terra natal; e até ao cargo de “suplente da primeira divisão”, que era uma espécie de substituto do padre superior, “disciplinário”, sempre estudioso, para tomar conta de umas cinco dezenas de pré-adolescentes, entre os quais lá estava eu aprendendo e também conhecendo Berilo. Desde então, sua rica personalidade já retratava generosidade, responsabilidade, inteligência e grande entusiasmo pelo trabalho. Tudo isso sempre se enriqueceu pelos seus talentos e bons sentimentos.
          Depois de tantos caminhos andados, Berilo Ramos Borba, ao escrever esta biografia, satisfaz o desejo de deixar seus passos para a memória sua, dos seus e dos amigos e para sua posteridade, contando-nos marcos da sua vida, pegadas das suas estradas por Campina Grande, onde conheceu Dôra, até vir morar entre nós em João Pessoa; e, da mesma forma, de pessoas que, com ele, subiram as ladeiras da vida e removeram, quando necessário, as pedras do caminho. Seu relato é simples como ele, sempre cheio de simplicidade que é fator de sucesso a qualquer bom escritor. Jamais se imaginaria sair de Berilo uma obra que não fosse simples, porque ele é simples. Sua indumentária engravatada de jurista e de requisitado advogado é somente costume dos fóruns, toga dos tribunais, o que não modificou seu modus essendi, culto e modesto, sabendo das coisas, todavia com ares e aparências da sabedoria socrática: “Só sei que nada sei”.