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Universo Paralelo

                        Uma manhã como tantas outras, mas inexplicavelmente, diferente...
                        O sentimento que incomodava Júlia era a sensação de não ter vivido o dia anterior, não conseguia lembrar os acontecimentos das últimas horas.
                         Livrou-se do trânsito ainda suportável do início da manhã saindo da avenida e inconscientemente dirigiu para fora da cidade. Não se importava muito com o caminho, o que a direcionava era aquela luz no horizonte, o sol se levantando por traz da cordilheira, afastando as poucas nuvens ainda sonolentas.
                         Tentou mais uma vez lembrar alguma coisa, algum detalhe da noite anterior, mas a visão grandiosa do nascente, afastava os resquícios do passado recente, então não insistiu mais, deixou-se levar pela inusitada liberdade que invadia seu corpo e lentamente se impunha, como a necessidade de respirar.
                         Pelo retrovisor, a cidade se distanciava, ainda mergulhada na noite e a estrada a sua frente parecia romper a escuridão apontando decididamente para a luz alaranjada. Abriu o vidro e sentiu o aroma da manhã penetrando suas narinas e um ligeiro tremor arrepiou –lhe os pêlos dos braços. Uma agradável onda de prazer espalhou-se pelo corpo, quando o cheiro da mata invadiu o espaço, sobrepondo-se à água de colônia.
                        Instintivamente acelerou, as faixas passavam mais rápido ao lado do carro que parecia romper a escuridão, lançando-se ao abraço cálido da manhã.
                        Júlia saiu para o acostamento e tomou a estradinha de cascalho que serpenteava, íngreme, pelo bosque. A impressão de já ter passado por ali a surpreendeu e sorriu com a confusa sensação de uma familiaridade com o desconhecido.
                        Seguiu subindo até um mirante natural, abandonou a estradinha e parou o carro. Abriu a porta, sentindo o macio contato com a grama ainda orvalhada, caminhou até a borda do abismo e olhou a majestosa e infinita planície, ainda escondida na névoa. Inconscientemente saudou o cenário que a natureza depositava a seus pés e teve como resposta o luxuriante canto dos pintassilgos misturado ao som da cachoeira que se esparramava entre as pedras logo abaixo. Deixou-se envolver pelo calor dos primeiros raios de sol, entregando-se ao deleite da alegria inexplicável que a invadia. De olhos fechados, agradeceu silenciosamente e por um instante sentiu-se perfeitamente integrada, parte do universo que a acolhia como a um filho pródigo.
                        Então começou o mergulho em perdidas recordações, em um tempo que jazia, há muito, esquecido. Uma viagem à essência de seu universo pessoal.
                           

Luiz da Silva Rosa
Enviado por Luiz da Silva Rosa em 26/09/2007
Reeditado em 14/05/2008
Código do texto: T669099
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Luiz da Silva Rosa
Santa Isabel - São Paulo - Brasil, 61 anos
71 textos (6901 leituras)
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Luiz da Silva Rosa