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Aquilo que seria o primeiro gol

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Na infância, o hoje Sr. Mundico, nunca teve tempo nem condições de se deleitar com as inesquecíveis partidinhas de futebol, com as famosas peladas que quase todas as crianças do mundo têm a grata satisfação de jogar. Ao contrário, dispendeu toda a infância e grande parte da adolescência auxiliando o pai – o insubstituível Aldo – nos afazeres da roça: brocar, capinar, colher e, quando chovia, auxiliar nas coivaras.
Quando adolescente, aos quatorze anos, mais precisamente, o pequeno moço Mundico saiu dos cuidados dos pais, aventurando uma vida na capital.
No primeiro emprego, trabalhou numa mercearia como auxiliar de balcão. Era ele quem recolhia as garrafas vazias dos refrigerantes, das cervejas e das cachaças que os fregueses, normalmente caminhoneiros, bebiam. Pensava mesmo em seguir essa profissão andarilha, mas, quando observava alguns velhos caminhoneiros, já em fim de carreira, desdentados, maltrapilhos, barbados... projetava-se no tempo, imaginando-se como um deles num futuro distante e incerto e isso o fez pensar diferente.
Um dos filhos do dono do bar era sargento do Exército Brasileiro e prometia conseguir uma vaga no recrutamento do EB para o nosso Mundico, tão logo este completasse a idade exigida para o serviço militar. E assim o fez no período oportuno.
Mundico, tentando servir numa condição especial se fosse convocado, falou, durante a entrevista que antecede a convocação definitiva, que era músico e foi destacado na banda de música. No primeiro ensaio o maestro descobriu que o jovem recruta sabia, e muito mal, apenas afinar o violão. Dispensou-o, levando-o para as fileiras operacionais do EB. – Músico! Bradara o maestro. Esse pessoal pensa que fazer música é moleza.
  Agora sim. Mundico começa o real período de adaptação da vida de caserna: flexões, apoios ao solo, abdominais, corrida... Flexões, apoio ao solo, abdominais, corrida...
Os dois primeiros meses foram horríveis. É o que chamam de período de adaptação quando os paisanos incorporam os fundamentos e as posturas do militar. É um período difícil e demorado, mas é também o que nos deixa as melhores recordações quando saímos, quando damos baixa das fileiras das Forças Armadas. Ah! Se todo brasileiro tivesse a oportunidade de passar por isso!
Num belo dia de sexta-feira, o tenente Mota, da turma de Aspirantes do ano anterior, convoca os recrutas para uma atividade física mais amena. Pede algumas sugestões:
– Tenente! Vamos jogar um futebol americano.
– É melhor um tartaruga-bol – interpela o recruta 626, sorridente.
– Vamos apostar um cabo de guerra, tenente. Quem perder paga cinqüenta – sugere um vibrador de caserna.
Por fim, na mais pura democracia, sentencia o tenente:
– Tudo bem. Já decidi. Vamos bater uma pelada.
  Os times são formados. Onze de cada lado.
Durante toda a discussão, Mundico ficou calado, não opinou em nada. Na hora da escolha foi “convocado” para o time do tenente.
Que sorte! Pensou Mundico aliviado. No time do tenente, somente ele poderá reclamar da minha bola.
Começa a primeira partida. O time do tenente ganha de dois a zero. Até aquele determinado instante, Mundico ainda não havia tocado na bola e já percebiam a sua inimizade com a redondinha mais cobiçada do planeta. Tudo bem. Afinal, o time estava ganhando; o tenente estava satisfeito com o desempenho de todos.
De repente, a oportunidade mágica aparece. Num daqueles momentos quando se está no local certo e na hora exata, a bola sobra, sozinha, para Mundico. Está somente ele e a trave. O goleiro já havia sido driblado pelo recruta 608, à Ronaldinho.
Mundico suspira fundo e pensa vaidoso:
É agora ou nunca.
Prepara-se para o chute. Bate com tanta força que consegue fazer a bola subir, mas subir tão alto, que sequer sai. Os demais não acreditam no que vêem.
Como é que se consegue perder um gol feito como aquele.
Alguns xingam, outros sorriem. O tenente põe a mão na cabeça e o jovem atacante permanece inerte como um centroavante de boa estirpe que é obstruído por um zagueiro intrépido na hora do chute final, no crucial e decisivo momento mágico do gol.
Mundico não suporta a dor que invade o dedão do pé direito quebrado pela violência do chute. Sob o aspecto traumatológico, o chute saíra perfeito, irretocável. Os companheiros de caserna retiram-lhe a chuteira com dificuldade e observam o dedão do pé direito do recruta Mundico adquirindo um aspecto de cogumelo com uma chapeleta enorme e meio arroxeada...
Nosso jovem artilheiro é carregado e, já na enfermaria do quartel, sentencia:
Fica para a próxima vez. Ai...

Fortaleza – Ce, 19 de março de 1999.

Do meu livro 'Crônicas e mais um conto.'
Nijair Araújo Pinto
Enviado por Nijair Araújo Pinto em 26/09/2007
Código do texto: T669528
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Nijair Araújo Pinto
Crato - Ceará - Brasil, 46 anos
2197 textos (65195 leituras)
81 áudios (1661 audições)
3 e-livros (542 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/12/17 16:09)
Nijair Araújo Pinto