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Abreviatura

Ignorando mais uma vez em que posição se encontravam os ponteiros do relógio, porém sabendo onde estava, resolveu que era hora de retornar.
Sem saber que era quase impossível, atravessou cambaleando a avenida movimentada. Em meio a buzinas e olhares apavorados, ganhou a calçada com ar de triunfo.
Seguiu seu itinerário de rotina sob comentários dos que observavam, sem contudo, ouvi-los ou que fingia não ouvir.
Chegou em sua casa sem maiores dificuldades, com um autômato bem programado, sentindo-se refugiado.
Buscou as palavras certas para justificar mais uma vez sua longa ausência, para a única pessoa que demonstrava algum interesse: Sua ainda mulher.
Desistiu, mesmo porque já o fizera inúmeras vezes, sem no entanto, achar uma razão que a satisfizesse. Talvez porque esta razão não existisse.
Apenas com alguns gestos, os quais julgavam necessários, para um diálogo a sós, dirigiu-se aos seus “aposentos”, com o objetivo único de repousar.
O sono, seu melhor companheiro nesta hora, não demorou.
Os sonhos foram muitos, dos quais não saberia coordená-los para uma narrativa, apenas como temas ou breves lembranças.
Tão logo se fez dia, já estava acordado.  Levantou cedo, como de costume.
Notou que nada mudara, em relação as demais manhãs que passara nos últimos meses.
Sentindo-se atraído, como de costume, mal arrumou os cabelos e dirigiu-se ansiosamente para a porta da sala.
Quase que oculto por um cúmplice silêncio, e evitando contratempos, ganho o portão da rua, iniciando sua breve jornada, sem perceber que estava sendo observado.
Atravessou a avenida, porém com o cuidado de observar o movimento de ambas as direções, contrariando uma das regras básicas de segurança que diz: O mais importante de uma viagem é a volta.
Chegou ao seu destino, já saudado por alguém que notara sua demora. Como de costume, fez seu primeiro pedido, como se precisasse fazê-lo, sendo servido prontamente.
Tudo normal, estava iniciada sua rotina diária, a qual seria apenas interrompida pela sorte ao atravessar novamente aquela mesma avenida. Talvez pela imprudência de alguém na direção de um automóvel que acabara de abreviar uma vida.


Paulo Kostella
Enviado por Paulo Kostella em 27/09/2007
Reeditado em 13/03/2008
Código do texto: T670520

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Sobre o autor
Paulo Kostella
São José dos Campos - São Paulo - Brasil, 58 anos
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Paulo Kostella