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ESCOLA SEM PARTIDO

A ESCOLA SEM PARTIDO DA MINHA ADOLESCÊNCIA

Nelson Marzullo Tangerini

          Neste momento, em que uma deputada catarinense pede para que os alunos gravem seus professores “vermelhos” e os denuncie ao governo e se discute a Escola Sem Partido [ou Com Partido?], vêm à minha mente os terríveis anos que passei no Colégio Piauí, no Encantado, subúrbio do Rio, onde professores sisudos e autoritários tentavam  pacificar uma turma de alunos revoltados.
          A professora de Língua portuguesa, D. Aparecida,  era uma pessoa boa, que escondia, talvez, em sua alma, a sua insatisfação com a direção da escola e com o país. A  professora de História, não me lembro mais seu nome, era uma senhora dura e intransigente. Em sua aula, era possível ouvir uma mosca voando. Talles, o professor de Ciências, sentava-se em sua cadeira e ditava sua matéria. Sua aula era monótona e chata. O professor Jairo, de Educação Moral e Cívica, militar, tentava nos manter em silêncio com punhos de aço. Mas a rádio corredor dizia que, com as meninas bonitas,  ele esquecia a moral.
          É de Jairo que quero falar. Justamente neste momento em que querem reintroduzir  a matéria OSPB, Organização Social e Política Brasileira, no currículo de nossas escolas. A reintrodução desta matéria nos faz lembrar da finada ditadura militar, quando o professor da referida matéria era uma antena repetidora dos informes do regime militar. Se a Escola Sem Partido pretende punir professores críticos que formarão cidadãos críticos, estamos caminhando para um novo regime autoritário, como no passado.
          Quando estava no antigo ginásio, meu professor de EMC, o autoritário e austero sr. Jairo, de quem falei acima, tentava nos manter quietos, acomodados e alienados, naqueles pesados anos 1970. Ele  tentava nos convencer de que o país era um mar de tranquilidade. Se eu tivesse a tecnologia que tenho hoje, poderia filmar e denunciar o professor Jairo como doutrinador?
          Ainda me lembro daquela figura arrogante, que mais parecia uma cambaxirra agitada, inquieta. Eu era um aluno terrível, bagunceiro, que sempre o desafiava, e  o deixava de cabelo em pé. Tanto que, certa vez, mandou chamar minha mãe e lhe disse que eu era um marginal, um vagabundo, debochado e que eu nada seria no futuro.
         O generoso militar, que me ofendeu e que tentou me humilhar perante a minha mãe, já quase chorando, deve ter ido, como escreveu Machado de Assis,  em Dom Casmurro, estudar a genealogia de algum campo santo. Mas, se vivo estiver, gostaria de lhe enviar  um de meus livros - autografado.
          Quanto à volta da nada didática OSPB - ou da EMC -, nossos alunos estrão diante de antenas repetidoras de um regime autoritário e intolerante, que pretende, entre outras coisas, desmarcar as reservas indígenas e quilombolas, um direito adquirido na Constituição, com muita luta, muito sangue e muito suor. Os índios são os primeiros já viviam no continente antes de nós; os africanos, escravizados,  trabalharam de graça até a exaustão para os brancos. Foram humilhados e torturados e, até hoje, são tratados, por racistas, ignorantes, sem a menor sensibilidade, como uma raça inferior. Não faz muito tempo, um antropólogo de farda, classificou os africanos como malandros e os índios de preguiçosos. Por que não questionaríamos estes problemas [o preconceito contra índios e negros] em sala de aula? Deveríamos varrer da história o sofrimento dos africanos  e índios para debaixo do tapete?  Eu me recuso a fazer isto. E serei punido com o já desgastado rótulo de “vermelho”.
          No Brasil, igrejas, militares, juízes e a mídia podem ter partidos; só os professores têm de se manter neutros. Com isso, fincamos nossos pés no 3º Mundo, de onde demoraremos séculos para sair.

O CONTEÚDO DO TEXTO É REAL, MAS OS NOMES DO COLÉGIO, DO BAIRRO E DOS PROFESSORES FORAM TROCADOS.


Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 28/07/2019
Código do texto: T6706430
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Nelson Marzullo Tangerini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
310 textos (23957 leituras)
9 e-livros (126 leituras)
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Nelson Marzullo Tangerini