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COMPOSITOR ALDO CABRAL

A AMIZADE ENTRE TANGERINI E ALDO CABRAL

Nelson Marzullo Tangerini

                O grande compositor Aldo Cabral [pseudônimo de Antônio Guimarães Cabral] é hoje, lamentavelmente,  um nome esquecido na história da música popular brasileira.
                 Autor de inúmeros sucessos, como Bom-dia! [de parceria com Herivelto Martins], sucesso com Dalva de Oliveira, Boneca e Despedida de Mangueira [de parceria com Benedito Lacerda], sucessos na voz de Francisco Alves, o Rei da Voz, Mensagem [de parceria com Cícero Nunes], sucesso na voz de Isaurinha Garcia, e Santos Dumont [de parceria com Ataúlfo Alves], sucesso na voz de Ataúlfo Alves, entre outros [sucessos] do cancioneiro popular, fizeram de Aldo Cabral uma referência em nossa música, tanto que seu seu nome figura do dicionário da Música Popular Brasileira, do musicólogo Ricardo Cravo Albin.
                Conheci Aldo Cabral pessoalmente. Era amigo do meu pai. Os dois sentavam-se na sala de nossa casa, diante de uma grande mesa e ali conversavam sobre música, sobre a UBC [União Brasileira de Compositores], sobre teatro, sobre a SBAT [Sociedade Brasileira de Autores Teatrais] e sobre suas vidas.
                No Banco da varanda, Dinah, minha mãe, e Fleury, esposa de Aldo, conversavam animadamente sobre assuntos do dia a dia.
                 Enquanto isto, Rita, Regina, Aldinho [filhos de Aldo e Fleury] e eu brincávamos a valer no quintal de nossa casa.
                 Era comum a família Cabral aparecer em nossa casa.
                  É difícil dizer, com precisão, quando Nestor Tangerini e o compositor Aldo Cabral se conheceram. Provavelmente, tornaram-se próximos em meados de 1940, quando participavam de reuniões da SBAT ou na UBC.
                  Em 1947, Nestor Tangerini, Prof. Zé Bacurau [Lourival Reis], Maurício Marzullo, entre outros, fundariam a revista de humor e sátira O Espeto, que veio a falir em fevereiro de 1948.
                   Da mesma forma, o nome da vedete Mara Rúbia pode estar esquecido, também.
                   Em 1951, Nestor Tangerini, Mary Lopes e Aldo Cabral escrevem a Revista-Show Chuva de Estrelas, com dois atos contínuos para o Teatro Casablanca, na Lapa. A peça, que tinha como estrela a vedete Mara Rúbia [nome artístico de Osmarina Lameira Colares Cintra], relacionava, no roteiro, os seguintes esquetes: 1) Chuva de estrelas (Prólogo-fantasia), 2) Música (Cortina), 3) Tamanho não é documento (ou Fraco abusado) (Cena de rua), 4) Música (Fantasia, com início na cortina, voltando à cortina), 5) Mas... Caras (Quadro cômico em versos), 6) Música (Início da cortina), 7) Noivado desfeito (Diálogo em cena de rua, à frente de uma casa), 8) Música (Início na cortina – seguida de fantasia ou não), 9) É por isso que o Brasil não vai pra frente (Cena de rua), 10) Música (Início na cortina), 11) Ladrão amoroso (ou Em tudo existe o “H”) (ou ..............................), 12) Música (Início na cortina), 13) Coisas que acontecem... (Cena de rua), 14) Música (Início na cortina), 15) A Víspora (Quadro cômico – de Nestor Tangerini), 16) Música (Seguida de avant-final) e Final (com toda a companhia).
                     Eis o fox-cançoneta do espetáculo, Garçonete, escrito por Nestor Tangerini e Aldo Cabral e cantado por Mara Rúbia:

 “Boa noite, meus senhores e senhoras,
 que aqui buscais prazer nalgumas horas.
 De vossa linda ceia farta e vária,
  eu sou a Garçonete extraordinária.
  Um momento, meu senhor, um instantinho,
   não me demoro nem um bocadinho;
    vou já servi-lo co´a maior presteza,
     pois bem merece toda a gentileza.

      Sim, senhor; eu já vou indo, cavalheiro.
       Aqui é tudo rápido, ligeiro.
       Ninguém retarda e nada aqui se atrasa.
       Não fosse a nossa casa a melhor Casa.
       Um momento, cavalheiro, um só momento;
       serei ligeira como o pensamento.
       Deixando de modéstia e sendo franca:
       presteza e tudo, só na Casablanca.

       Boa noite, meus senhores e senhoras,
       que aqui buscais prazer nalgumas horas.
       Os pratos que pedistes – é tranchan:
       virão caprichadinhos... amanhã!”

               Com os pseudônimos Armando Graça e Jacinto Riso, Tangerini e Aldo Cabral, respectivamente, passam a escrever, ainda, em 1951, esquetes humorísticos para o programa SHOW CONTINENTAL, da extinta TV Continental. São de lavra deles os esquetes Casal Granfino, personagens: Laura e Bonifácio; Brincando com a fome, personagens: Faminto e transeunte; Rádio-Consequência – Duração: 30 minutos -, personagens: Português, chefe, auxiliar, mulher, leiteiro, explorador, doutor, balzaquiana, galã, argentino, brasileiro, patroa, Maria, namorado, namorada e Pertense; Grande Prêmio Brasil – cortina -, personagens: Imprensa, 1º jóquei e 2º jóquei; Pintor Futurista, personagens: Gripilina, Brederodes, Felícia, criada e Parvenir; Graçolândia – um escrípite radiofônico -, personagens: Menino e professor; A noiva – com introdução da Marcha Nupcial, de Mendelson -, personagens: ? e O esquecido – cena de rua -, personagens: Silva e Catolé.
                 Esta crônica ficaria imensa, extensa, se eu pusesse aqui a troca de cartas entre os dois amigos. Encurtando, segue, um texto  que Aldo Cabral escreveu, em 1966, após a morte de Nestor Tangerini:
 “EXPIROU NESTOR TANGERINI

  Compositor, Teatrólogo, Poeta, Humorista,
   Jornalista e Professor de português – sucumbiu
   aos 70 anos de idade.

                   Chamava-se Nestor Tambourindeguy Tangerini, mas usava, apenas, o nome autoral de Nestor Tangerini, e faleceu a 30 de janeiro último, numa enfermaria do Hospital dos Servidores do Estado da Guanabara, vencido que fora, afinal, por uma bronquite atroz.
                   Tangerini (como era conhecido na intimidade) e que nasceu em Piracicaba, no Estado de São Paulo, em 23 de julho de 1895, iniciou o curso primário em Manaus (Amazonas) e terminou-o em Belém, no Estado do Pará.
                    Aqui, no Rio de Janeiro, frequentou o Mosteiro de São Bento e tirou os preparatórios no Colégio Pedro II, parceladamente; mais tarde, cursou Farmácia e Direito.
                   Além de compositor (vinculado à U. B. C.) Tangerini era, também, bom teatrólogo (revistógrafo), ótimo poeta, humorista notável, jornalista de pouca militância, e respeitável  professor de português, tendo sido muito forte em sintaxe.
                   Como teatrólogo deixou vários trabalhos que foram apresentados nos nossos teatros de revista, ocorrendo-nos, nesta oportunidade, enumerar as seguintes peças de sua autoria: “Tudo pelo Brasil” (com Luiz Leitão); “Cadeia da sorte”, “Na boca da hora” e “Lição doméstica” (estas, com Aldo Cabral) e muitas outras, que o tornaram  conhecido (também combatido) no meio teatral, pois era uma espécie de espantalho aos “J. Maia” e outras “nulidades empoladas” que ainda infestam os nossos palcos. (Mas isto é assunto para a SBAT).
                       É de Nestor Tangerini o mais rápido esquete que se conhece, e que figurou em sua revista “Estupenda!” levada a cena no Teatro Carlos Gomes desta cidade, em 1937, explorado, então, pela Cia. Teatral Jardel Jércolis. A cena passa-se na sala de operações de um hospital, onde se vê o paciente sobre a mesa, ainda sob a ação da anestesia, com uma das pernas amputadas à altura do joelho. Ao lado do paciente, o médico que acabava  de fazer-lhe a amputação da perna, e, à cabeça do paciente, veem-se o médico-auxiliar e a enfermeira. Após um instante, o médico-auxiliar diz, baixo, à enfermeira: “Acho que o doutor enlouqueceu”. E o médico, virando-se, rápido, para ambos, grita-lhes, irritado: “Loucos estão vocês! Por que não me disseram que o caso era apendicite?” (Pano).
                          Poeta como poucos, Tangerini, versejava em qualquer gênero, sempre espontâneo e correto. Eis algumas de suas quadras, muito bem feitas:

 Lírico:

   “A vida já quis perdê-la
    e hoje a quero prolongar;
    encontrei a minha estrela
    na noite do teu olhar”.

     Malicioso:

     “O esposo se aborreceu
     com sua linda senhora,
     que num maiô se meteu
     - ficando toda de fora”.

      E irônico:

      “O meu lar é muito meu,
       embora igual a qualquer;
       quem manda nele sou eu
       depois de minha mulher”.

                   No terreno do humorismo, sentíamos-lhe o pulso firme em “flashes” como este:

                    “ – Quer casar comigo, senhorita? Eu já estou ganhando o salário mínimo.
                     - Ora, isso não dá nem para os meus lenços.
                     - Não faz mal: eu espero para quando você ficar boa da gripe”.

                    Fortíssimo como professor de português, observamo-lo, por várias vezes, a corrigir, elegantemente os seus amigos quando estes incorriam em erros crassos através de frases comuns no diálogo do quotidiano. Assim, ouviamo-lo, de quando em quando, explicar, paciente e amigavelmente: “Não se diz: água de flor de laranja e sim, de flor de laranjeira, pois a planta é que dá a flor  e não o fruto”. “Também não se deve dizer: tenho ódio dele, mas, sim, tenho-lhe ódio. Quem tem ódio, tem-no a alguém”. “É errado dizer-se o doente está muito grave; correto é dizer-se o doente está muito mal”. E complementava: “As doenças é que podem ser graves, não os doentes”. “Mais um erro comum: Aquele bandido tem morto muita gente. O certo é substituir-se morto por matado. Morto e morrido são particípios do verbo morrer. O particípio passado de matar é matado. Dizer que o bandido tem morto muita gente equivale a dizer que ele tem morrido muita gente.
                        E, como compositor, embora letrista talentoso, compôs, apenas, meia dúzia de obras, pouco divulgadas, como por exemplo “Manon” (Valsa, de parceria com Ronaldo Lupo) e “Dona Felicidade (Valsa, com Benedicto Lacerda), um primoroso poema constituído de seis quadras :

DONA FELICIDADE
             
Valsa de Benedito Lacerda [Música]
e Nestor Tangerini [Letra]
Gravada em 1937 por Castro Barbosa
para a gravadora RCA Victor.

No País da Fantasia,
que habitei na mocidade,
eu também quis, certo dia,
ver Dona Felicidade.
Enveredei pela Estrada
da Esperança, e em meio, então,
mais linda do que a Alvorada
encontrei Dona Ilusão.

Perguntei-lhe logo, a ela,
se onde morava sabia
a criatura mais bela
do País da Fantasia.
E a Ilusão, gesto risonho,
mostrou-me, numa colina
da Cordilheira do Sonho,
uma casa pequenina.

Prossegui na caminhada
e, cansado mas ufano,
bato à casinha indicada,
onde um velho, o Desengano,
me atendeu com gravidade
à informação que pedi:
- A Dona Felicidade
Já não mora mais aqui.
                 Nestor Tangerini, que foi sepultado em jazigo da família no Cemitério São João Batista, deixa viúva (Dona Dinah) e três filhos (Nirton, Nirson e Nelson) e um grupo de amigos que pranteiam o seu passamento mas continuam cultivando o que de bom aprenderam com ele”.
                  Embora o texto acima não tenha levado a assinatura de seu autor, não podemos deixar de dizer que foi escrito pelo grande compositor, poeta, teatrólogo e jornalista Aldo Cabral, amigo fiel, homem honesto, modesto e tão pouco chegado a bajulações e a igrejinhas.
Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 31/07/2019
Reeditado em 01/08/2019
Código do texto: T6709382
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Nelson Marzullo Tangerini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
310 textos (23957 leituras)
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Nelson Marzullo Tangerini