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A CONQUISTA DO GREGÓRIO

      O Gregório era Getulista dos quatro costados. Com G maiúsculo, como convém quando se quer explicar e não deixar dúvida. Getulista e, embora não soubesse bem do que falava, não negava ser afeito, adepto, defensor e promotor, no seu tempo, do paternalismo.

      Nesta reengenharia do paternalismo, forma moderna criada através do orçamento participativo ou participação popular, vai-se as assembléias para abrir mão de quase tudo e opinar sobre a priorização de quase nada. É oferecida a sociedade uma possibilidade como pedir e ganhar.

      A reengenharia está na nomenclatura. Ao definir prioridades, a sociedade conquista os seus direitos e os políticos fazem questão de que as pessoas saiam convictas de que ganharam o que escolheram.

      O Gregório, sobretudo gostava de ganhar. Podia ser qualquer coisa, mas se não ganhasse não ficava contente. Gostava e ficava exultante quando ganhava. Melhor ainda se fosse algo que pudesse ganhar de político.

      Quase chegando aos oitenta, andava descontente com a política moderna, "no tempo do Gegê, falava com intimidade, deputado que se prezasse não entrava em plenário sem um 38", mas havia descoberto que num certo lugar se podia escolher “uns direito pra ganhá”.

      Não pestanejou, se informou e esperou o ano seguinte pra participar de vez daquelas tão faladas assembléias, que insistentemente comentava seu compadre João Batista, mas insistia algo inquieto: - Será que eu vou ganhá os meus direito? João Batista esclarecia: - Os teus direitos não, compadre, vais escolher um ou alguns deles!
      - Mas será que vão me dá, compadre?
      - Não é bem assim, compadre, tu vais é conquistar os teus direitos.
     
      Não era bem o vocabulário do Gregório, mas ele entendia muito bem o que ia buscar com a participação popular: - Um dia eles vão me dar os meus direito.
      - Mas a gente pode escolher, esclarecia o João Batista.

      O tempo passou ligeiro. O Gregório nem se deu conta de que, com  idade que tinha, tudo que não deveria gostar era de um tempo que passasse ligeiro. Lá estava, atento, falante, uma liderança em potencial, quando a reunião começou.

      O Gregório deu todos os palpites, pediu todos os pedidos, palpitados e raciocinados nos últimos oito meses, e diante daquele notório representante do bairro foi assegurado, conforme votação na assembléia, que um dos seus direitos (ele entendia pedidos) seria concretizado, mas só um. O Gregório era sujeito campeiro, não ficou desapontado, estava prevenido e pensou o velho ditado: - Cavalo dado não se olha o pelo.

      Tudo votado, tudo concluído. Uma dúzia de reuniões, alguns meses de conversa, e o Gregório, por ter exercido sua cidadania, via realizado seu direito conquistado.
      -Não te falei, questionou o João Batista, agora é a gente que resolve.
      O Gregório deu uma paradinha, respirou fundo como quem se concentra, e respondeu cheio de sabedoria, com seu vocabulário enraizado no passado e ainda ruminando o presente:
      - Pois te digo, compadre, isso é que é ganhá uma conquista!
Marco Antônio Canto
Enviado por Marco Antônio Canto em 27/09/2007
Reeditado em 06/09/2008
Código do texto: T671042
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Marco Antônio Canto
Hulha Negra - Rio Grande do Sul - Brasil, 59 anos
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Marco Antônio Canto