MANHÃ DE PRIMAVERA

Hoje é a primeira manhã de uma primavera atípica para nós cariocas.
O inverno se despediu com duas semanas de muito frio e tempo nublado. Ontem, após o dia ter virado noite, a chuva abençoou, com vontade, o Rio. Mas, apesar de tudo, a natureza é pródiga e este novo dia surgiu claro e brilhante, saudando a nova estação.                                                                  Eu não resisti e fui até a minha varandinha para sentir o sol. E esquecida do dilúvio da véspera, molhei os chinelos na água que não havia escorrido. Mesmo assim, fiquei alguns minutos, nesta paz morna de um sábado que começa promissor.   E procurei esquentar os cabelos molhados do banho.   
Ao secar os pés para retornar aos afazeres, vejo no chão, junto ao sofá, uma pequena flor, cor de rosa. Como ela chegou até ali? Será que foi o vento que a trouxe de presente, antecipando o meu aniversário?    Mas, como?
Minha varanda tem aquela tela de proteção, pensando nos netos... Ou será que ela se desprendeu da manta do sofá? Lá se encontram muitas flores e algumas parecidas com esta, até na cor e desenho.   Aí pensei: a vida é mesmo um mistério, um dom de Deus. Um Deus que se aproxima de nós, que se revela, que se comunica, que usa para isto, os brinquedos que criou, na natureza...    E como esta semana ando meio tristonha, na certa Ele quis reverter esta situação. E esta simples florzinha, da forma como apareceu, me despertou, me motivou, me encantou e me cativou.  E logo, mesmo antes do café da manhã, procurei papel e caneta e registrei este sentimento de agradecimento. Obrigada meu Deus por esta delicadeza, por este encontro com a magia, com o transcendente, com o sonho, com a poesia... E aquele mal estar passou. Eu precisava estar bem para acolher os coroinhas, no meu serviço pastoral, voluntário e semanal.   E, Ele sabia, por isso a ternura. Depois, descobri ao pegá-la, que não era uma flor natural, era uma florzinha que se desprendeu do vaso, lá no fundo da varanda. Ela era vermelha, mas o tempo e o sol mudaram a sua tonalidade, como o tempo mudou o meu tônus. E com certeza o mesmo vento da madrugada que espalhou as nuvens, fê-la passear, voar até a sala e fez o meu coração viajar, também.
                                                           
                                                                  Terezinha Domingues, 24 set 2005

Terezinha Domingues
Enviado por Terezinha Domingues em 21/08/2019
Reeditado em 30/03/2022
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