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AMAZÔNIA IV

AMAZÔNIA IV

Nelson Marzullo Tangerini

               De São Simão, MG, seguimos para Itumbiara, Goiás, e, de lá, para Rio Verde, onde jantamos e pernoitamos, para seguir viagem rumo a Goiânia para, depois, partirmos para o norte do Estado, hoje Tocantins, e Marabá, cidade localizada no sul do Pará.
                Em Rio Verde, naquela noite em que chegamos à cidade, após deixarmos nossas malas numa pensão popular, procuramos, nas imediações da rodoviária, um lugar para comer. Entramos num local que parecia ser um restaurante. Depois de um breve tempo ali, concluímos que jantávamos num lupanar, uma vez que homens chegavam ansiosos e saíam do recinto com ar de satisfação ou alívio; os que chegavam, escolhiam as mulheres, que ficavam por ali circulando, e subiam com elas por uma escada para o segundo andar, onde estariam os quartos. Enfim, jantamos, saímos e voltamos para o hotel, com a finalidade de dormir, pois, no dia seguinte, bem cedo, partiríamos para a capital de Goiás.
                 Enfim, chegamos a Goiânia, onde ficamos alguns dias, pois Nirton queria me mostrar toda a cidade, onde estivera outras vezes. Ficamos hospedados na casa de uma família amiga dele. Nesta casa, todos ficaram surpresos, quando, depois de comer um ovo frito, comi algumas fatias de abacaxi. Supersticiosos, eles achavam que, quem fazia tal mistura acabava morrendo. Lendas que permaneciam no imaginário popular.
                  Apesar de não sermos fãs de zoológicos, onde animais ficam presos sem terem cometido qualquer crime para merecer prisão perpétua, fomos visitar um Jardim Zoológico. Paramos, junto de um grupo de curiosos, diante da jaula de um leão, que resolveu nos fazer uma grata surpresa. Quando virou-se de costas para o público, meu irmão, biólogo, pediu que nos afastássemos do local. E não deu outra: revoltado, por estar ali preso, o rei dos animais mandou um jato de urina bem forte em quem ainda contemplava o felino atrás das grades.
                 Com um amigo de meu irmão, visitamos, certa noite, uma rádio de Goiânia. Não me lembro mais o nome da rádio, mas a pessoa que dava entrevista na rádio ficou gravada para sempre em minha mente: conhecia, pela primeira vez, uma nova liderança indígena, o jovem cacique Raoni, que, naquela entrevista, já denunciava a deslealdade de madeireiras, fazendeiros e garimpeiros, que, além de destruírem as florestas, levavam doenças para os índios. Até aquele momento, um outro líder indígena denunciava as mesmas mazelas: o cacique Mário Juruna, aquele índio que andava para cima e para baixo com um gravador a tiracolo.
                   De Goiânia, seguimos viagem para o norte, passando por Anápolis, em direção a Tocantinópolis, onde dormimos uma noite, também na casa de um amigo. Era uma casa rústica, toda de madeira. Mal pude dormir, uma vez que fazia muito calor na cidade e os mosquitos tocavam violinos a noite inteira.
                 Tocantinópolis recebeu este nome porque é uma cidade à margem do Rio Tocantins. Do outro lado do Rio, está a cidade de Porto Franco, no Estado do Maranhão. Atravessamos o rio de balsa e visitamos as terras maranhenses, onde vimos inúmeras plantações de babaçu. Era minha primeira visita ao nordeste brasileiro. Ficamos ali pouco tempo, apenas para não dizer que nunca pisamos solo maranhense. E voltamos para Goiás.
                  Depois de dois dias em Tocantinópolis, seguimos para Araguatins, onde ficamos alguns dias, na casa dos irmãos Juarez e Cícero.
                   Araguatins recebeu este nome por estar localizada entre os Rios Araguaia e Tocantins. Do lado esquerdo do Bico de Goiás [hoje Bico do Tocantins], banhado pelo Rio Araguaia, já víamos os primeiros sinais da Floresta Amazônica, no Estado do Pará, para onde iríamos depois, passando por São João do Araguaia, muito próximo a Xambioá, onde a Guerrilha do Araguaia foi totalmente dizimada pela ditadura militar, em direção à Cidade de Marabá. De balsa, com os irmãos Juarez e Cícero, visitamos uma ilha localizada no meio do Rio Araguaia e que pertence ao Pará.
                   O cenário era encantador, e eu lamento até hoje não ter levado uma reles máquina fotográfica para registrar tanta beleza. Aves da região sobrevoavam o Rio Araguaia e a ilha, onde colocavam seus ovos ou alimentavam seus filhotes.
                   Durante toda a viagem, na beira da estrada ou mesmo dentro das cidades, víamos gente vendendo animais da fauna brasileira. Um menino aproximou-se de mim com uma pequena gaiola, mais parecida com um alçapão, e me ofereceu um pássaro marrom e alaranjado. Perguntei-lhe quanto custava. Ele fez o preço. Comprei o pássaro e, logo após, soltei-o. Feliz com a liberdade, ele retornou ao seu habitat natural, enquanto o menino me olhava espantado, sem entender o meu gesto libertário.
                     Numa bela manhã, saímos bem cedo com a finalidade de chegar a Marabá. Na divisa entre os Estados de Tocantins e Pará, Nirton, Cícero [vestido com sua farda de policial do antigo Estado de Goiás] e eu pegamos uma carona na boleia de um caminhão que se encaminhava para a travessia de balsa. Atravessamos o Rio Araguaia e entramos no Município de São João do Araguaia, região próxima a Xambioá, no Estado do Pará, onde fomos presos pelo Batalhão de Floresta do Exército Brasileiro.
                      Deixarei para a próxima crônica este emocionante relato.
Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 07/09/2019
Código do texto: T6739555
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Sobre o autor
Nelson Marzullo Tangerini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 64 anos
310 textos (23957 leituras)
9 e-livros (126 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/09/19 17:57)
Nelson Marzullo Tangerini