A simplicidade nem sempre é tão simples

Pois então, minha cara Yule. Lhe ajudar a chegar exatamente as vias de fato, não sei se posso. O que posso fazer, é lhe dar algumas dicas que diz respeito de como geralmente a coisa toda acontece comigo.

Veja bem. Muitas das ideias que coloco nos meus textos, ou grande parte delas, vão surgindo conforme estou escrevendo. Entretanto, a ideia central de uma crônica por exemplo, frequentemente aparece assim, “do nada”. Acho que o nome desse fenômeno é “Inspiração”. A musa fazendo sua visita (claro, só quando ela quer, a vadia!).

Ou seja, quando a inspiração bate, eu escrevo, quando não, eu sofro. Sofro porque sinto muita necessidade de escrever. Como diz O Rilke em suas Cartas a um jovem poeta, “eu me sinto forçado a escrever”.

Porém, você me perguntou como fazer para ter ideias. Eu só posso lhe responder dizendo que o problema não é exatamente ter ideias, pois dá para se escrever sobre tudo, tudo mesmo. “Não é o assunto que desenrola o escritor, e sim, o escritor que desenrola o assunto”. Se você for um bom escritor, levar algum jeito para coisa, e principalmente, se você sentir uma necessidade verdadeira de escrever sobre determinado assunto, a coisa toda flui de um jeito ou de outro, demorando o que for preciso, e não importando se fique bom ou ruim, não necessariamente. O importante é que você desabafe, que ponha para fora a sua vontade ou necessidade de escrever. Óbvio que você não escreverá superbem de um dia para o outro. Talvez será preciso alguns anos de treino, e, sem sombra de dúvida, muita leitura. Ler, ler de tudo, é essencial. Não tem como escapar disso, creio eu.

Por outro lado, fora a inspiração, há quem diga que também é preciso ter o dom para escrever. Para ser sincero, eu sou meio desconfiado desse negócio de “dom”. Não que não exista uns caras por aí que parecem ter “nascido com uma maior facilidade para coisa” (o que não é o meu caso). Porém, se você realmente quiser escrever, “sentir uma profunda e verdadeira vontade de escrever” (para não deixar de usar o Rilke mais uma vez), você escreverá, e todo resto vai melhorando com o tempo. Claro, se você realmente se dedicar a isso (vide, por exemplo, o Bukowski). Eu mesmo sou um exemplo vivo disso. Venho lutando com as palavras a anos e posso perceber claramente a minha evolução na escrita.

Mas enfim. No final das contas, escreva. Seja sincera ao escrever. Respeite os seus limites. Não force a mão, se esforce o máximo para ser espontânea ao escrever. Escreva como se estivesse conversando com alguém próximo a você. O Jack kerouac escrevia assim, “como se estivesse contando algo que viu na rua, para sua mãe”. Garanto a você que usando esse tipo de tom de escrita, lhe ajudará muito.

Claro que também existem as técnicas de escrita, livros e vídeos, por exemplo, vídeos no youtube, estão aí a rodo para quem quiser aprender alguns “esqueminhas de como escrever bem”. Mas eu particularmente fujo de tudo isso. Tenho medo de perder a minha espontaneidade completamente. Provavelmente isso seja burrice da minha parte, porém, o que fazer, c’est la vie!

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Todas as vezes que ela parte, eu entro em desespero. E ela sempre desaparece de mim sem dar explicações, me deixando aqui, perdido, sem saber o que fazer da vida. Geralmente é dessa forma que acontece, eu nunca sei de onde ela vem e nem para onde ela vai. Quando ela some, não adianta chamar, implorar aos Deuses que volte, ela não tem compaixão pelo meu sofrimento. Ao mesmo tempo que a amo intensamente, também a odeio por estar sempre me abandonando desse jeito. Eu até tento, mas não sei viver sem ela. Preciso dela para me sentir vivo. Só ela pode me ajudar a ser ouvido. Só ela me aguenta. É através dela que posso falar, desabafar, choramingar minhas dores.

Como disse, não sei como a deixo escapar, só sei que de repente, como num passe de mágica, ela não está mais aqui do meu lado. Talvez a culpa seja minha, por não a tratar como ela merece. Ou quem sabe, a culpa seja dela, por não vir a mim com mais intensidade.

Para onde foi a inspiração dessa vez? Oh, musa infiel!

Tiago Torress
Enviado por Tiago Torress em 09/09/2019
Reeditado em 10/10/2019
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