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O QUE SOBROU DE MIM.

Ao telefone, ela me disse que não tinha importância, que entendia que eu era uma pessoa ocupada e por causa disso, não tinha tempo para recebê-la. Sua prontidão de espírito, deixou-me desolada. Eu não esperava essa reação e de repente, vi-me como nenhum ser humano gosta de se ver. Por causa desse sentimento, dei adeus à liberdade daquela tarde de terça feira. Abri a porta da minha casa, mesmo sem abrir o coração.

Ela viera de outra cidade, sem aviso. O que me incomodava não era a surpresa, era a lembrança. O saldo negativo de outras épocas. Eu a conhecia da sua infância. Crescera nesta rua, ao lado dos meus filhos. Já casada, começara a surtar. Tinha crises de ausência e de repente, embarcava numa viagem imaginária, sem data certa para voltar. Olhar fixo no infinito. Não comia, não tomava banho, não reagia. A família nos chamava para ajudar, mas sempre que chegávamos, como na crônica de Clarice Lispector, o trem já havia partido. A medicina parecia não poder fazer muita coisa. O marido, quando voltava do trabalho, dava banho nas crianças, fazia comida, cuidava da casa e do cachorro. Era um homem de poucas palavras, e olhava para tudo sem esboçar reação. Mas não me enganava.  Eu sabia que ele não agüentaria muito tempo.

Quando o marido não agüenta, os pais agüentam. Pai e mãe agüentam tudo. E, um dia, como eu previra, a casa caiu, a paciência esgotou, o amor acabou, e ela foi “devolvida” à guarda dos pais, em outra cidade, e, rapidamente substituída.

Um dos filhos foi morar com a avó paterna, o outro a acompanhou.

Era dessa época, que não nos víamos mais. O que não me impedia de ver a outra, usufruindo tudo o que fora dela. Por isso, o sentimento dominante era de tristeza e frustração.

Enquanto eu refletia rapidamente no passado, sem saber ao certo como recebê-la no presente,  ela entrou em meu escritório. Eu estava aqui, escrevendo um texto. Fazendo o que gosto, fazendo a crônica da minha vida.  Renunciei ao meu fazer para recebê-la.

A figura era quase surreal: vestido preto transparente, em pleno calor tropical, pele muito queimada pelo sol. Dias e dias sob o sol, cortando cana, fizeram dela uma anciã precoce, a pele do rosto desidratada, a expressão vincada. Só os olhos ainda eram verdes. Verdes!  Caminho fechado para o homem, mas aberto para Deus.

Percebi, em poucos minutos, que a psicose estava controlada, mas não debelada.
Que a vida fizera dela uma sobrevivente.
 Que o poço era mais fundo.
Que a qualquer hora, ela viajaria de novo, para bem longe de todos nós.

Conversamos sobre coisas concretas: sua condição não podia ser esmiuçada e minha impotência precisava ficar camuflada.
Soube que a sua casa era tão precária que não tinha porta.
Que a porta estava caída, esperando para ser colocada no lugar.
 Que o novo marido não tinha interesse em consertar a porta.
Que o filho mais novo estava envolvido com drogas.
Que a irmã entregara o filho mais novo para o pai e a internara num sanatório, diversas vezes.
Que o menino sempre voltava, como voltam os cachorros sem dono. Que a mãe continuava tendo crises epilépticas.
Que a última delas lhe custara uma queimadura no rosto.
 Que Deus era o seu refúgio na terra dos homens.
Que eu não deveria mencionar  a palavra “azar”, porque dava azar.

Entre uma lição e outra, - que eu assimilava, juro que assimilava, porque Deus usa os fracos para ensinar os fortes-   perguntei-lhe  porque estava casada com o atual marido, que me pareceu assim meio ruim de serviço.  Ela me respondeu bem humorada: “nem todo mundo tem a sorte que você teve para conseguir um bom marido”. Como se um bom marido fosse uma mercadoria preciosa. Será que não é?

 Foi a única comparação entre a sua e a minha vida. Mais não disse, e nem foi preciso. Escorreguei por entre os labirintos dessa mente, que ora passeava no claro, ora no escuro, evitando confrontações dolorosas.

 Depois dessa derrapada,  tudo foi lindo: aprumamos a conversa em direção à vertical do céu. Falamos de Deus e esse falar nos fez acreditar que um dia, tudo seria diferente.

Depois, mais tarde, servi o café. Caprichei na mesa, como merecem as visitas. Era muito,  muito pouco.  Revirei minha bolsa e lhe dei uns trocados. Por azar não tinha quase nada, nem trocado e nem sem trocar. Continuava sendo pouco. Em desespero de última hora, fiquei pensando no que poderia lhe entregar: ela me dera tudo por nada. Então,  procurei umas peças de roupa das minhas filhas, coloquei numa sacola plástica, entreguei para ela, e nos despedimos. A sensação de muito pouco, ainda estava, incômoda,  latejando, dentro de mim.

O ônibus não podia esperar.

Na porta, ela me abraçou e disse a frase que eu temia:  “muito obrigada por tudo o que você fez por mim.” Não sei se esse "tudo" referia-se ao passado ou ao presente. De qualquer forma, dolorosamente eu soube que esse "tudo" fora nada.

Abraçamo-nos de novo, sem pressa, e dessa vez foi como se nos despedíssemos pela última vez na vida. Então, ela bateu o portão e se foi. Eu fiquei. Fiquei sem saber o que fazer, com o que sobrou de mim.
Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 30/09/2007
Reeditado em 30/09/2007
Código do texto: T674396

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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Ana Ribas