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TRAVESSURAS DO SEU GONHA

      Pedras Altas fica no sul do Rio Grande do Sul. Lugar de eventos épicos e lúdicos, conhecido por ter um castelo de pedra erguido por Assis Brasil, renomado político e empreendedor gaúcho.

      Nos anos 60 do século passado, as histórias que envolviam Assis Brasil, o Tratado de Paz de Pedras Altas, que encerrou a Revolução de 1923 e deu novos rumos à política gaúcha, com repercussão nacional, o castelo, as relíquias guardadas no castelo, a deslumbrante biblioteca, a excelência genética dos rebanhos da Granja, o Cemitério da Boa Viagem, e as descendentes de Assis Brasil, Quinquinha e Menina Lídia, eram muito comentados. Porém, para mim, o personagem do lugar era o Seu Gonha.
     
      Em Pedras Altas, um Borgonha de Leon virou Gonha. Inteligente, perspicaz, conversador, criador e contador de histórias e causos, um velho menino travesso.
     
      O fato de ser analfabeto ou quase, fazia com que as pessoas do lugar o vissem como um homem meio grosso, um grosso desembaraçado para alguns. Para mim, que mais ouvia que falava, interessava mais o que ouvia. Boa gente, e que ninguém duvide, pessoa de alegrar tarde, noite e madrugada, era só deixar falar, e  continua a alegrar os meus dias sempre que volto a falar dele.

      Seu Gonha era da turma que se encontrava no bar do Alzemiro para conversar, tomar cerveja, cachaça, bebericar qualquer coisa alcoólica, Alemão Bueno, Artur Campos, meu pai e outros. Certa feita chegou com uma novidade, os brigadianos andavam incomodando demais:
      - Vou tirar carteira de motorista!

      Isto é frase que só poderia terminar com um ponto de exclamação. Na boca e nos olhos de cada um que se entreolhava, havia um ÓÓÓÓH! Passado o impacto inicial, alguém perguntou:
      - E como vais passar no teste escrito?
      Seu Gonha explicou:
      - O Delegado é meu amigo, já acertou tudo. Ele pergunta, eu respondo.
      - E os sinais?
      - Dou um jeito.

      Houve muito será que vai? Tá querendo nos fazê de troxa! Isso é novidade do Gonha, mas ninguém levou muito a sério, afinal, de tanto que a polícia rodoviária e os brigadianos de Pedras Altas o conheciam, a última coisa que ele precisava para dirigir sua fubica velha, que também jamais passaria em teste na Delegacia de Trânsito, era carteira de motorista, mas incomodavam, até porque sabiam que ele se incomodava.

      Não havia passado um mês quando correu a notícia, o Gonha foi para Pinheiro (Machado) fazer exame de motorista. Aquilo parecia piada, mas logo já havia quem dissesse:
      - Coisa de loucura!
      Se havia quem jamais se pudesse imaginar fosse fazer um exame, este alguém era o Gonha.

      Naqueles dias, mais que nunca, Seu Gonha era o personagem do lugar.
     
      O que vou contar a seguir, juram que aconteceu. Eu não vi, nem ouvi no local, mas permanece no imaginário do lugar. Só poderia ter sido atribuído ao Seu Gonha.

      O Delegado, para simplificar, resolveu fazer apenas três perguntas, simples, quase óbvias, que falavam por si só, e avisou:
      - Se matar todas, sai de carteira, pois de direção já te conheço de faz tempo. Diz aí para que servem estas placas. Mostrou a primeira, pista escorregadia.
      Seu Gonha olhou e disse: - esta é mole, cobras na pista.

      O Delegado quase encerrou o teste, mas resolveu dar uma chance, uma vez que em caso de cobras na pista ou pista escorregadia o motorista deveria diminuir a velocidade e causaria a placa o mesmo efeito. Apresentou a segunda placa onde dois colegiais aguardavam para atravessar a rua; atualmente, área escolar.
      Seu Gonha abriu um sorriso: - Isto é coisa de amigo pra amigo, certo, lá vai, dois mininu parado de borça na esquina esperando o ônis.

      Para o Gonha, na tampa, pensou o Delegado, e mandou ver a terceira, proibido buzinar.
      Seu Gonha arrematou, definitivo:
      - Não corneteia!
Marco Antônio Canto
Enviado por Marco Antônio Canto em 30/09/2007
Reeditado em 02/10/2007
Código do texto: T674614
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Marco Antônio Canto
Hulha Negra - Rio Grande do Sul - Brasil, 59 anos
71 textos (10083 leituras)
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Marco Antônio Canto