Dona Neves e seu Milton

Rosângela Trajano

A minha amiga dona Neves é bem magrinha e gosta de comer bolachinhas no final da tarde. Diferente de mim, adora bater pernas. Anda bastante por Natal. A minha amiga tem mais de sessenta anos e parece uma boneca de pano com os seus vestidos floridos. Tem um passinho apressado, deixa-me sempre para trás na caminhada. Há alguns anos, ela morava aqui perto da minha casa, era só atravessar a rua e estava na casa dela que fica do lado da sombra e a gente pode sentir o vento mexer nos cabelos nos finais de tarde.

Quando dona Neves morava aqui perto da minha casa, todas as tardes eu ia tomar café com ela e a gente conversava sobre as nossas coisas e as coisas da vizinhança inteira. Era tão bom aquele tempo! Ela me falava que passou a manhã no posto de saúde para ser atendida, que foi pegar remédios na farmácia, que foi fazer as unhas na casa de dona Terezinha e que ganhou um presente dela. Dona Neves é amada por todo mundo. Ela sabe fazer amigos. É daquelas mulheres que conversa com gato, cachorro, papagaio e, principalmente, gente.

Depois que dona Neves mudou-se do meu bairro e foi morar em outra cidade não tenho mais com quem tomar café da tarde. As minhas tardes ficaram mais tristes e hoje contento-me com a escrita ou leitura de um livro bom. Dona Neves tem um esposo que é um velhinho muito bonzinho, ele já conta mais de oitenta anos, porém ainda faz umas coisas de jovem, como consertar rádios, televisões, ventiladores e inventar objetos eletrônicos incríveis. O nome do esposo de dona Neves é seu Milton. Um amigo meu também. Um casal perfeito. Seu Milton adora conversar sobre o curtume onde trabalhou muitos anos na juventude e inventou máquinas de todos os jeitos e tamanhos para melhorar o trabalho e aumentar a produtividade dos operários.

Ainda há pouco passei em frente a casinha de dona Neves e olhei para ela com uma saudade enorme dos meus amiguinhos que nunca mais os vi. A sopa que dona Neves faz é de lamber o prato de tão gostosa que é. Quando jantava na casa dela saía de lá com o bucho por acolá, mais cheio do que saco de farinha.

Na casa de seu Milton tem vários relógios espalhados pelas paredes, parece que ele tem um “tic” por relógios. Também gosta de saber como vai o tempo na cidade e faz isso com os três aparelhos que tem na varanda. Seu Milton tem pouca audição e ouve a televisão num volume alto, dona Neves nem liga mais para isso, ela até sorrir das coisas do seu velhinho que tanto ama. Gosto de ouvir as histórias de seu Milton que foi um técnico em eletrônica muito bom quando jovem. Entende de tudo de eletrotécnica. Dona Neves foi comerciante e vendeu muitas roupas de porta em porta, tinha muitas clientes. A vida apresentou-me esse casal maravilhoso que faz parte das pessoas que amo e guardo no coração.

Apesar da idade avançada, seu Milton ainda carrega uma escada nas costas, faz banquinhos de madeira e planta batatas no quintal da sua casa. Ele é um faz tudo dentro de casa. Se quebrar alguma coisa ele vai lá e conserta. Se a peça queimou ele vai na rua e compra uma nova. Nunca fica parado.

Dona Neves e seu Milton têm uma filha que é professora de português. Ela gosta de ensinar e o seu sonho é ver os alunos com vontade de aprender cada vez mais. Às vezes ela entristece com o ensino-aprendizagem do nosso país, noutras fica alegre quando um aluno seu, conquista algo.

Quase me esqueço do gato Ruan. Um gato ruivo que eles criam e tem o direito de dormir na cama do casal. Mimado que só vendo para acreditar. Ruan gosta de comer sardinha e quando está faminto dona Neves prepara a sua comidinha bem gostosa. O gato Ruan só obedece mesmo a voz grossa de seu Milton. Ele não é um gato de rua, vive dentro de casa assistindo televisão ao lado da família. Acho que nunca tomou um banho de chuva.

Essa é a vida da família que mais amo no mundo!