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Las Aventuras de Chico Pato

Capítulo 06
Las aventuras de Chico Pato
Chico Pato. Se eu não me engano, prometi contar histórias dele. Mais histórias, quero dizer. Ele era de cor negra. Seu rosto era cheio de cicatrizes, antigas, de um tempo de ¨”glórias” (entre aspas): brigas, soqueamentos de ida e de volta (bateu, mas apanhou; apanhou, mas bateu). Um homem leal, bravo (no sentido de bravura, não de brabeza). Amigão do meu pai. As pessoas diziam: “Seu Barbosa, não fica bem para o senhor ter amizade com o Chico Preto, um pobre”. (Seu apelido original era Chico Preto). Meu pai dizia: “Chico Preto não. Chico Pato”. (E não ligava a mínima para as opiniões.) (Ele, Chico, tinha um “dom” – chamava os patos e as patas – ambos vinham pegar milho em sua mão, docinhos, obedientes). Patos são ariscos – não com o nosso amigo. Chico Pato. Meu pai achava Chico Preto um tanto deselegante. O Chico Preto, digo Pato não ligava. E ainda mais, o pai o tinha por amigo. Quê que tem?
Ninguém sabia de onde ele veio. Ninguém lhe conhecia pai, mãe ou equivalente. Tinha uma esposa que raramente aparecia em qualquer lugar. Ela lavava, passava e sustentava a casa. O Chico flanava. Havia uma festa de aniversário? Ele ficava na calçada. Segurava os cavalos, amarrava-os, se alguém tinha ido de montaria. A carroça, ele estacionava, o Jeep indicava o melhor lugar para ficar – não dirigia. Enterro, mesma coisa. Até que alguém o convidava a entrar – nos casamentos e aniversários – funeral é público.  De forma que, tudo que acontecia ele sabia, tudo que acontecia a isto ele comparecia. Era muito amigo de meu pai. Ganhava um café com leite, a famosa média, um pastel de carne do bar do Zé Pastel, um pedaço de bolo de fubá, um quitute, um mimo comestível. Defendia meu pai em tudo. Para ele, defeito o seu Barbosa não tinha, nunca teve, e nunca teria. Grande amizade.
Minha mãe, Alanir, era uma grande cozinheira, dom herdado da minha vó Alice. Fazia qualquer tipo de comida. Desde kibe, meu avô Albino era libanês, até feijoada e um bom franguinho com polenta e etecetera. O Chico pato chegava lá em casa na hora do almoço. Minha mãe perguntava: “Quer almoçar, Chico?”  Ele dizia: “Já armocei, dona Lani”. Enquanto almoçávamos ele ficava só olhando. Daqui a pouco, ele elogiava o franguinho: “Que cheiroso, deve de tá bão”. Minha mãe dizia: “Pega um pouquinho compadre”. Ele sempre dizia que meu pai e minha mãe eram compadres dele. O motivo disto nunca ficou esclarecido ou pelo menos compreensível. Mas não percamos o fio narrativo. Ele pegava um prato e lá ia em direção à panela. Um pouquinho de frango. Um fio de macarrão. Um tiquinho de feijão. Salada para rebater. O docinho de abóbora. Queijinho, cafezinho. Ele era um rapaz parrudo, cheinho, bem nutrido. Final: ele almoçava bem almoçado. Só que era suficientemente bem-educado para nunca chegar bem na hora do almoço e ir aceitando o convite para armoçá, digo almoçar.
Ele tinha defeitos? Tinha. Todo ser humano tem. Era bem supersticiozinho e ... não vou esconder, de vez em quando bebia. De vez em quando. Só que quando bebia, sai da frente. Mas no normal, soltava foguetes para meu pai em dia de jogo do Terra Boa F.C. Limpava quintais. Carregava mudanças. Anunciava a saída dos ônibus na Rodoviária: “Água Boa, está saindooo. Japurááá, Araruna, Maringááá´, Cianorte, São Toméééé. Está saindo. Último aviso de embarque. Quem vai vai, quem não vai que fique. Tá saindooooooooo”. Amansava cachorro bravo, dava milho para as galinhas e, lógico para os patos, fazia estilingues para a criançada, espantava gato teimoso de um quintal, por exemplo. Figuraça.  Eu queria ser igual a ele quando crescesse. Só que bebia. Só que se pelava por uma história de assombração. Bom, ninguém é perfeito.
Este capítulo está ficando comprido. Vou encerrá-lo com uma historinha abreviada. Um dia, o Chico bebeu. Começou a aprontar daqui e dali. Invocou que meu pai não confiava na amizade dele. Falava com voz pastosa. Vou repetir, ele não bebia frequentemente – esta não é uma história de ébrio. Porém, é uma narrativa que envolve alguém alcoolizado que fez algo descomunal, pelo menos para mim e meu pai, que estávamos sóbrios. Meu pai o levou até o bar: “Zé Pastel, traz um café forte, para nosso amigo”. Um rapaz eventual havia comido seu pastelzinho e tomado seu guaraná Gold Scrin. Estava saindo do bar, simples, quieto, humilde. O Chico veio em direção a ele e do nada deu-lhe uma autêntica patada na cara. Plááá´! Meu pai gritou: “Não, Chicooooo. Por que você fez isto? Ele respondeu: “Para o senhor nunca mais duvidar da minha amizade!!!!!” O rapaz, este, coitado ficou paralisado, estático, sem reação. Rapidamente, o Chico foi levado para fora e para casa. Casa que nunca fiquei sabendo onde era. Hoje eu penso que este nosso amigo era alguém bem diferente, maneiroso, mas que preencheu na nossa vida, um painel que só aceita acolher tipos humanos. O que ele era muito.
Jeferson Turbay
Enviado por Jeferson Turbay em 08/11/2019
Código do texto: T6790197
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Jeferson Turbay
Curitiba - Paraná - Brasil, 63 anos
7 textos (57 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 12/11/19 01:06)
Jeferson Turbay