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O Tempo Acabou
 
Espremido tal qual duas maçãs e remoendo tentativas em vão para não mordiscá-las, estou há tempos tentando ser eu.

Não que eu espere uma plateia de ansiedades a minha porta, mas corrói no meu antro a vontade simples e apanágica de ser eu.

Seja você - diz um. Seja você diz outro. E o tempo vai passando e mal consigo tentar ser eu. Em casa sou. Consigo às duras penas me compor.

Vejo quadros, pinturas e telas e imagino de onde saiu tanta inspiração - Saiu do eu. Todo mundo o tem. Eu, mal consigo decifrar pequenas coisas, tanto mais ser eu.

Se vou na quitanda já não sou eu. Entretantos tons de voz e gestos que de outra pessoa certamente foram.

Se peço um pão na padaria, já entrou outro hino de voz e gesto. Eles me enxergam de uma maneira e eu me sinto de outra.

Para mim sou largo, alto e jovem. Para eles, sou gordo, fausto, velho e pendular.

É só uma questão de ponto de vista. Aí começa e morre a questão.

Como posso ser eu duas vezes? Se na primeira sou eu que faço as coisas, que penso e me faço andar; na segunda é outra pessoa que empurra meu eu com gestos que não são meus.

Se sou eu, porque não ser igual a mim?

Se vou a rua desprevenido, crio o caos interior e me escondo embaixo de marquises, alpendres mofados pelo tempo e deixo o povo passar indiferente.

Parece que nem estou ali. Parece que eu já fui e ninguém me enxerga.

Enxergam, sim, os mendigos. Estes estão a minha volta remoendo meu dinheiro. Para os cães que me rodeiam e me encontram no meio daquela faminta multidão, dou pão de ontem.

Ao anoitecer de qualquer vida você já não é mais você. Você é composto de vários "eus", que explodem em angústias sem nome e desejos incautos.

É no entardecer que você procura você. Mas, nada encontra. Se você é você então o que tem dentro de você que compõe o seu eu? Que nada mais é do que nada?

Somente palavras? Não. A fase da vida, que é a fase da morte, divide você em duas partes.

Na primeira é você: sofrido,cabisbaixo, cheio de pergaminhos de doenças e perdulárias sementes que, se não são de trigo, parecem mais com grãos de abóboras. Avelãs certamente não são.

Então decidi. Se não posso ser mais eu diante dos outros, porque não sou mais reconhecido e, praticamente, dado como morto, então não sou nada e nada espero.

Espere o bonde passar e as macieiras adoçarem.

Espere sentado o que não vem mais sentido e medite sobre o que se foi.

É uma armação bem simples: parte de você que é você ficou no tempo atrás e parte de você que é hoje, se escorre, sem vez, sem luz e lampiões à querosene, num passado, onde a vez é de cada um e a hora é de quem chegar. Não há datas a marcar.

Não me medro mais.

Mas verdade seja dita: essa tal de vida imiscuída de surpresas prepara uma para você, bem no final: você não é mais você, ontem se mistura com hoje, as horas só correm para frente, você é um homem sem data, carimbos e testemunhas.

E fechem as cortinas. O tempo mal começou e já acabou.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 01/01/2020
Reeditado em 06/01/2020
Código do texto: T6831635
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel

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