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A Última Porta
 
Sou dono de cinco portas. As portas são de cedro, bem envernizadas e se encontram no meu jardim de inverno.

Todas as manhãs quando acordo brutalmente corroído no estômago por sucessivos e inúteis remédios, vou até o jardim e vejo, primeiro, se as portas continuam lá. É uma ansiedade muito natal a minha. E se alguém surrupia à noitinha ou lá pelas três da manhã uma de minhas portas?

Como precaução, a porta do jardim de inverno, que dá acesso às outras cinco portas, está seriamente amarrada por um cordel de latas. Se alguém entrar, as latas bordejarão um ruído e esse ruído deve me despertar angustiado. Não sei se tenho coragem de ir lá conferir a cara do larápio. Coisas do medo.

As cinco portas foram construídas há 53 anos.

Pela rigidez de sua madeira - importada dos Balcãs e com fechaduras texanas - levaram vários anos para ficarem prontas. Foram cinco carpinteiros, cinco envernizadores e cinco chaveiros. Na época custaram uma fortuna para fazer.

Mas, no final, quando vislumbrei as cinco portas, me desvaneci de interior alegria e pasmo fiquei com minha ideia surrupiante de tê-las, todas cinco, em minha casa.

Tenho várias opções diárias de manseiros das portas. A primeira se abre para meu passado. É ali que me revejo ainda criança, de mãos dadas com meus avós, passeando em parques tranquilos. Todos de conjuntos formais: engravatados com chapéus das mais variadas cores e estilos.

A segunda porta dá para a vida de minha mulher. Por ali a observo todos os dias. Onde ela vai, onde ela não vai. Ela mais vai, do que vem. Passeia pelas ruas e avenidas. Encontra-se sempre com outro homem, muito mais jovem do que eu, e eles ficam a conversar por horas. Depois desaparecem diante dos meus olhos. Tudo muito normal e tranquilo.

A terceira porta se abre para a vida de meus pais. Eles eram excessivamente carinhosos. Excessivamente, para um filho único que sempre andava bem vestido, de calça cáqui. Íamos todos os domingos a um lago e lá passávamos o tempo jogando pão para os patos. Não gosto muito destas lembranças, por isso frequento pouco esta porta.

A quarta porta abre para minha vida e nela vislumbro tudo o que fiz e deixei de fazer. Sinto mais e mais por tudo o que não fiz. Me mostra amigos que tive e se perderam no tempo. Rostos, uma infinidade deles, passam todos dias por esta minha porta. Muitos, nem me lembrava mais deles. Cumprimentam e perguntam como estou. Nunca respondo, pois não sei.

A quinta e última porta essa nunca abri. O carpinteiro me sugeriu que só a abrisse em último caso na vida.

Por isso mesmo, me é a mais atraente. Não sei o que há por detrás dela. Mas é a que eu mais cuido e flanelo todos os dias como se fosse um vitral de mil cores.

Vem muita gente ver minhas portas e tenho que explicar a cada um o significado de cada uma já que elas não tem nome, nem qualquer indicação. Só eu que as conheço bem é que sei...

Mas, numa noite inquieta e mal dormida, sem sono e ansioso, resolvi ir até o jardim de inverno. Fiquei algum tempo olhando as portas e uma ansiedade e curiosidade se ampliavam dentro de meu espírito. Finalmente num gesto-susto fui até a quinta porta e a abri.

Um forte lampejo de luz - como um holofote dos campos de concentração - me anuviou a vista e empanou qualquer imagem. Só havia a luz forte, densa e corrosiva. Nada via, nada enxergava. Então num gesto mais desmedido dei um passo à frente. Ao pisar, alcancei o vácuo e o vazio e fui rodopiando numa espécie de funil sem fim e aquilo que durou apenas alguns segundos, me pareceram séculos.

Por fim, a luz se apagou e eu encontrei pouso para os pés. Havia aberto finalmente a quinta porta e encontrado aquilo que sonhava há tempos. E a causa-mortis foi angústia, desplendor, desilusão, solidão e falta do que fazer na vida. Morri velho e emperdenido por ter conseguido abrir a quinta porta.

E, por isso, aconselho a todos que façam como eu: construam suas portas e deixem sempre a última fechada.

Só toque nela se sentirem que, ainda vivo, sua vida acabou.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 01/01/2020
Reeditado em 06/01/2020
Código do texto: T6832114
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel

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