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Coisas Passageiras
 
São coisas fáceis, outras difíceis. Me lembro de calças curtas indo pro colégio. Me lembro do cheiro daquela época; das alamedas cobertas por ameixeiras e com vãos de ciprestes correndo por toda rua, cedrada de pedras sextavadas...

Me lembro das coisas dóceis, frágeis e violentas.

Sei que me lembro. Das coisas passageiras que foram e que me trouxeram até aqui. Lembro de minha promessa de ontem. Da primeira sala de aula. Cheiro de borracha e giz. Me lembro das coisas impossíveis e de outras quase impossíveis.

Me lembro do primeiro grande amor que durou algumas horas; e me lembro da chuva rebatendo nas vidraças coloridas,enquanto ouvíamos aulas infindáveis que nunca mostravam o que queríamos saber - eram voláteis e não davam frutos.

Me lembro o que me dava melancolia e a avidez de despertar para conhecer o novo mundo que estava lá fora, esperando por mim, com todas suas garras.

Ou não me lembro? São ácidas e cômodas as lembranças. Me lembro como se hoje fosse do rosto da primeira professora que me olhava com carinho e eu me retrincava de medo soberbo de imagens desconexas.

Ou não me lembro? Foi ontem que eu estava lá, perdoando a mim mesmo por pecados permitidos e correndo atrás de sonhos que eram medidos pela desconhecimento do meu espírito e da vontade de alcançar alguma coisa que parecia ser minha, mas que sempre estava tão longínqua e inatingível.

Me lembro de córregos, de paisagens, de rios, de prédios, do primeiro médico, me lembro até do tempo que era doce e inconstante.

Me lembro das coisas vazias e de espíritos soberbos. Do primeiro amigo. Do inimigo que ficou para o resto da vida.

Me lembro de travessuras e esperanças. Do sol e da lua. Das noites insones e de ter sempre muita esperança e muita vontade de viver.

Sempre por ouvir falar me cansava. Queria abraçar o mundo e desvendá-lo. Mas o julgava como um novelo embaraçado de lã: intricando, embolado de nódoas, tão difícil e inacessível.

Me lembro de rosas fracas e flores robustas. Me lembro de vãos e vazios. Só não me lembro exatamente quem eu era.

Não me lembro como eu fui. Não me lembro do dia que parti para o novo mundo para conquistá-lo.

Infelizmente tudo isso foi falácia e história infantil. Não consegui conquistar o mundo e nem ser conquistado. Aprendi muito e coisas desprezíveis que não podem contar no meu currículo de esperanças.

Me lembro de tudo como se fosse hoje. Não me lembro de quase nada de ontem.

E cheguei a conclusão que é muito difícil ser normal num mundo anormal. E quando chego a uma conclusão é que não cheguei a conclusão nenhuma.

Minha história ficou longe - como um trem fumacento que parte. Ficou o hoje que parece o ontem.

Mas hoje, homem feito, não tenho mais histórias para compor, só para lembrar. Jamais perco minha imagem de ontem pois é ela que me levará seguramente para o amanhã. Mas o amanhã já chegou e ficou o ontem.

De resto, o ontem morreu e me me levou junto.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 09/01/2020
Código do texto: T6838211
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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel

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