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O FUNERAL.

SMELLO = Alberto F.

A exigência social ou mesmo em solidariedade à família nos obri-
ga ao comparecimento em determinados atos sombrios. A grande maio-
ria que comparece o faz constrângida ou mesmo forçada pelas circuns-
tâncias.

Torna-se um momento de rever velhas amizades, volta-se à vi-
da de tempos idos, quando são lembradas reminiscências, advindo gos-
tosas gargalhadas de contingências passadas, em flagrante desrespei-
to ao morto, que nem silêncio pode exigir. Há pessoas que observam,
comentam e advertem os circunstantes que assim procedem e, deles
recebem o comentário desairoso, não liga está maluco e próximo a
embarcar para o "andar de cima". E, o defunto alí, imóvel, sem poder reagir.
Entre as damas presentes não existe grande diferenciação, opor-
tunidade propícia para se comentar a moda dominante, criticar como essa ou aquela presente está mal vestida, acrescentado mais: tornou-
se relaxada depois da morte do marido, tenho pena dela, mas com que
ganha de pensão não dá para andar na moda.

Começam a chegar as coroas, algumas vistosas, cheias de orna-
mentos, exibindo faixas elogiando a figura do falecido, quase sempre imerecida. Nesse instante, um mais indiscreto, sai do lugar em que se
encontrava,vai derrubando um por um a sua frente,ver e ler os dizeres das faixas e comenta em voz alta: foi um grande homem, honesto e trabalhador.

Se no enterro tem a viuva, ela se mostra inconsolável, embora muitas vezes praguejara: - tomara que morra seu bandido,mulherengo,
deixa em casa a família e vai beber cachaça no botequim. Mas naquele
momento está contrita, recebendo os sentimentos dos que chegam.

Começa o grande ato da solenidade, inveterado orador, pede a palavra, cita uma série de frases feitas, relembra memoráveis oradores
romanos e gregos, comparando a figura do morto. Outro, entusiasma-se,
depois de ter passado no botequim e ingerido uns tragos, não deixa de
passar a ocasião e relembra a figura do defunto, inerte no caixão, sem
poder mais reagir. E demora, nada de conseguir lembrar uma frase de efeito para concluir.O padre já presente se encontra impaciente, quer fazer a encomenda do corpo, porque tem outros compromissos, e está
impossibilitado pelo emérito orador. Outro que pensava também fazer sua peroração fica aborrecído, não vai nem ao sepultamento, veio es-
pecialmente para dircursar e não conseguiu.

O padre começa a oração, os presentes na sua maioria simulam
rezar, muitos não sabem ou esqueceram os mandamentos eucarísticos usuais dessas cerimônias, aparentam acompanhar o clérico.

Passam-se às horas, o horário marcado para enterro, ultrapasou
em muito, os coveiros ficam irritados,porque perderam outro que rende-
ria "gorda" gorjeta. Até que a grande maioria chega à sepultura,quando
aparecem duas senhoras esbaforidas, carregando uma caixa de petalas de rosas e outra trazendo uma vasilha de cal, com pequena colher de pedreiro.

Sepultado, acabou-se a afluência de pessoas à última morada do
falecido, que como antes em todos os atos antecedentes, alí permane-
ce só, sem nada mais poder dizer, reclamar ou protestar, a vida exter-
nou os momentos que tivera e deixara de aproveitar.
smello
Enviado por smello em 07/10/2007
Reeditado em 02/01/2010
Código do texto: T684565

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Sobre o autor
smello
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 93 anos
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