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A ingenuidade dos dias


Eram belos aqueles anos, naqueles tempos, na cidade da minha infância.
As pessoas que se acercavam da nossa familia, acrescentavam um colorido todo especial às nossas vidas, e era tão intenso, que às vezes eu me confundia sobre o amor das pessoas.
Sabia que dentro da nossa casa estavam os melhores. O instinto que dominava o meu ser, não mentia nunca.
Não resistia ao encanto dos meus, e mesmo sem perceber eu estava acorrentado àquelas criaturas mágicas, que eu deixava delicadamente e feliz, serem os donos de mim.

Era um tempo de grandes procissões. O perfume das velas e a magia do incenso.
Quanta beleza eu via no olhar das pessoas nas igrejas!
A pessoa crédula, agarrada a Deus é ingênua. E como são belas, de uma beleza infinita o semblante das pessoas ingênuas!

As Professoras, aquelas que nos traziam a luz da sabedoria, nos ensinavam com as mãos, com a boca e o olhar.
Eu sabia interpretar aqueles gestos: Todos sabiam!
Havia a austeridade, mas havia a delicadeza da ternura. Nunca a raiva.
Jamais conseguí perceber o ódio no olhar daquelas mães. Ensinar era uma devoção, e elas praticavam este sentimento.
Aprender era com o tempo e com a vida. Importante era confiar, e aquela cumplicidade era que nos educava para a vida, e os sonhos que a vida nos levaria a sonhar.

A timidez me privava de muitos encontros, mas me enchia de encantos.
Quando somos audazes, conhecemos as pessoas em um relance, e tudo fica mais facil, mas a timidez esconde as mais belas coisas, os melhores segredos.
Existem almas maravilhosas, as melhores, que estão em segredo, e ir descobrindo aos poucos, é que dá à vida uma montanha de luz.
Quantos semblantes belíssimos nas meninas, nas crianças encantadas eu descobria, e descobria bem devagar. Elas iam se mostrando aos poucos, como um brilhante, e enchendo os meus dias e me fazendo animar segredos que eu não esqueceria nunca mais.

Carregava comigo muitos perfumes da mulher pronta para o amor!
Sabia que aquele perfume era um chamamento para o amor: A ingenuidade nos eleva a este instinto primal.
Levava as impressões das fêmeas como um troféu. Queria às vezes, que a vida corresse mais depressa, como nas corredeiras!
Não me preocupava com o futuro, mas queria aqueles perfumes das moças na época do amor, misturados no meu corpo de qualquer maneira, desde que fosse.

E havia a mulher feita, e com seus mistérios. Perguntava-me, como seria o amor de uma destas jovens na época do amor. Quem teria tais privilégios?
E como seria belo o amor destes seres desconhecidos, que perturbavam os meus sonhos!

Eu não sabia o que era futuro. Ele estava em viver plenamente cada momento.
Tambem não sentia saudades. Quando se tem doze anos ninguem tem tempo para a saudade!
A ingenuidade me presenteava com uma felicidade completa. Chegava a sentir encantamentos desconhecidos. sabia que era felicidade porque a via colada na retina brilhante dos meus olhos, ou na beleza do meu semblante cheio de luz!

Amava as touradas. Aquele combate de perigo e de glórias embebedava o meu espírito.
Queria montar o touro, mas a idade não permitia. Então eu fugia para as corredeiras.
Costumava navegar as correntezas e mergulhar nos grandes canalões, abraçando firme um tronco de bananeira.
Pela simplicidade da bananeira e pela doçura do perigo: O perigo era doce!

Aqueles tempos eram cheios de riquezas: Nuvens de pássaros e muitas flores!
As colinas que circundavam a minha cidade eram verdejantes de matas e córregos que desciam para tornar mais forte o Rio Doce. Eu subia aquelas colinas como se elas fossem feitas para os meus pés. Havia uma força no meu espírito, uma alegria, que às vezes eu acreditava voar.
O meu corpo parecia leve, a minha vontade flutuava! O meu pensamento de disassociava do meu físico, e das alturas, queria arrebatar o meu corpo. Mesmo não voando com o corpo, o meu espirito navegava no ar: Eu era um pássaro imaginando!

Havia tanta fartura pelos caminhos, tanta coisa de se comer, que eu acreditava que a terra era um grande pomar, cheio de bananas e abacates, cana doce e morangos silvestres, e havia comida para todos: Homens, pássaros, peixes e macacos.
Podia-se morrer de tudo naqueles lugares bem-aventurados, até morrer de felicidade: Jamais por falta de ter o que comer!

A cumplicidade com aquilo que me cercava, me alimentava com uma simplicidade tão grande, que eu me tornava parte de tudo aquilo, como se a existencia fosse nada mais que um sentimento. O olhar de tudo me observava, abençoava e transbordava, como notas delicadas de uma canção!

O que me encantava uma vez ainda, era a ingenuidade dos dias!
E era tão difícil encontrar uma explicação, quando tudo é só contentamento.
Talvez, porque a felicidade seja um sentimento para o qual ninguem vá encontrar uma explicação!
Bastava que existisse, para ser lembrada docemente, eternamente, e agora!

Jose Balbino de Oliveira
Enviado por Jose Balbino de Oliveira em 09/10/2007
Reeditado em 09/10/2007
Código do texto: T686732

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Sobre o autor
Jose Balbino de Oliveira
Vitória - Espírito Santo - Brasil
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