SABEDORIA DO DESAPEGO

Gosto da ideia de que a felicidade está nas pequenas coisas. Acho mesmo que é possível se sentir feliz com muito pouco. Tenho alguns amigos que conseguem exercer essa sabedoria do desapego de uma forma tão doce e convidativa. Eles não se preocupam em vestir roupas sofisticadas, planejam passeios sem consumação, não querem acumular, querem viver e demonstram ser mais gratos.

Em uma sociedade cada vez mais ligada à ostentação, as pessoas agem no automático, gastam o que não têm para impressionar quem não se importa verdadeiramente com elas, às vezes quem nem as conhece. A onda do “consumo, logo existo” é cruel e destrutiva, mas revela como somos marionetes do sistema.

Ouvi, recentemente, um culto em que o reverendo pregava como somos idólatras. A idolatria, explicava ele, é quando se substitui Deus por alguma coisa. Um carro, por exemplo, pode ser objeto de idolatria. O trabalho pode se tornar idolatria, se não tomarmos cuidado. Há pessoas que idolatram seu companheiro ou filho. Sem falar daqueles que idolatram clubes de futebol ou artistas. Idolatria é apego. Apego é sofrimento. E lá se vai a felicidade...

O ritmo intenso de nossas vidas faz com que nos esqueçamos das pequenas coisas e como elas podem perfumar nossa alma. Tomar um pingado na padaria, por exemplo, me faz muito feliz. Caminhar me deixa feliz e um sorriso, mesmo tímido, é muito bom a qualquer hora e não tem contraindicação.

Felicidade, mesmo, não tem receita. O negócio é saber encontrá-la e entender que, lépida, ela vai tentar sempre escapar. Cabe a nós persegui-la. Shakespeare dizia que é melhor viver sem felicidade do que sem amor. Eu já acho que amor é uma forma de felicidade, não o platônico, é claro, e sim o correspondido.